Desfralde rápido. Bebê que dorme a noite toda. Criança que
come bem e de tudo. Dentre as inúmeras situações ideais da maternidade está o
desmame lento e gradual. Daqueles que a mãe diz orgulhosa que ‘fulaninho largou
o peito sozinho... um dia não quis mais’. Mal aê, mas eu não acredito em
você Amamentar é uma delícia e - tirando aqueles primeiros dias
horrorosos, que nada se parecem com a Claudia Leite na foto do cartaz campanha
de amamentação no posto de saúde – eu nunca tive maiores problemas. Dei sorte,
eu sei. Muitas passam meses tentando, insistindo, algumas conseguem outras não.
O mercado de leite em pó, mamadeiras e chupetas também não ajuda, sob o
discurso de que ‘tudo bem, se você não conseguir nós oferecemos o que há de
melhor pro seu bebê’ ele covardemente mina a autoconfiança das mulheres na sua
capacidade de amamentar. Dora foi amamentada exclusivamente com leite materno e
em livre demanda até os seis meses (Chupa
mercado!) Mas eu queria mais. Eu queria poder dizer ‘minha filha
mamou no peito até a hora que ela quis, aos poucos não foi querendo mais e um dia
parou...’
| tudo lindo na amamentação. #sqn |
Logo no início entendi que, depois do esforço inicial de
adaptação de ambos – fica a dica: bebê não nasce sabendo mamar! - a amamentação
tem que ser boa para duas partes. É simbiose, se um lado não sente
que tá ganhando com aquilo, dá ruim. No começo, além do sentimento maravilhoso
ao ver sua cria engordando e crescendo só com o teu leite, amamentar dá onda.
Juro. Melhor coisa era a sensação de relaxamento quando o leite descia,
apagávamos inebriadas ela e eu. Mais tarde, quando ela já comia, eu ainda me
deliciava com as brincadeiras dela enquanto mamava. Não há descrição fiel da
sensação de acalmar um filhote com seu seio. O olho no olho. Tudo uma delícia. Amei
amamentar!
Curti muito, tudo. Nunca lamentei acordar a noite pra dar o
peito a ela. Até porque, durante algum tempo eu já nem acordava mais. Dormindo
comigo ela vinha, se servia, e voltava a dormir. Nunca soube responder a famosa
pergunta ‘quantas vezes ela acorda pra mamar a noite?’ Sei lá. Parei de contar
na segunda semana de vida dela. Além de me orgulhar, é claro, dos olhares
escandalizados quando eu sacava o peito no meio do metrô pra amamentar a menina
de mais de um ano e meio. ‘Mas ela ainda mama!?’ ‘Mama sim!’
Tão ocupada levantando a bandeira da amamentação-exclusiva-prolongada-em-qualquer-canto-da-cidade
e sambando na cara da sociedade-pró-mamadeira-com-farinha-Láctea-pro-bebê-dormir-a-noite-toda,
eu demorei pra perceber que amamentar não tava mais legal pra mim. Não, não tô
falando dela. Tô falando de mim. É, da mãe, a dona do peito. Pois é... Primeiro
eram os seios doloridos e cheios de leite nos finais de semana que a cria ia
pra casa do pai – que adianta você ter o fim de semana para você, se parte dele
você passa ordenhando ou regulando a ingestão de líquidos para o peito não
encher? Depois começou a me incomodar a forma como ela vinha pro peito não
importasse se eu quisesse dar o peito ou não, puxando roupa, me deixando nua
onde quer que fosse. Criatura ariana: quando ela quer, ela quer. E, por fim,
aos quase dois anos da filha a amamentação começou a atrapalhar o meu sono.
Irônico, né?
Foi difícil aceitar que estava ruim para mim. Mais ainda
tomar a decisão de que ela pararia de mamar no peito. Muita conversa com ela. E
vi que só conversa não surtiria efeito – ariana, lembra? Decidi que eu
desmamaria minha filha sem ela querer. Mas por que eu havia chegado ao meu
limite, e todo aquele trabalho inicial de entender que a coisa tinha que ser
boa pras duas? Tão complexo se enxergar como parte ativa deste conjunto, tão
custoso me dar direito a voto nessa decisão. Mas decidi. Também não foi num
momento plácido, após muita reflexão e conversa. Foi num momento em que eu vi
que não aguentava mais. Falei que não dava mais e ponto.
O desmame natural, lento e gradual aconteceu aqui? Sim. Mas
foi o meu, que chegou aos poucos, sem que eu percebesse. Tendo aceito este. Por
aqui estamos, há uma semana, no processo de desmame da cria.