quinta-feira, 12 de março de 2015

do marketing ativo da creche particular.

há pouco mais de um ano, passei por uma saga em busca de creche pra cria. deixei o nome dela em inúmeras filas de espera até encontrar a que nos recebeu de braços abertos com muito carinho e onde Dora ficou por um maravilhoso ano. até optarmos por tentar uma vaga na rede pública. durante esse ano recebi resposta de algumas dessas listas de espera. todas gentilmente recusadas, com uma breve e também educada justificativa. nada de mais. até hoje de manhã. quando recebo no meu celular uma ligação de uma funcionária - que aqui chamaremos de Fulana - representando uma creche - que aqui chamaremos de creche X-particular-com-fila-de-espera-kilométrica. segue o diálogo:

- alôu bom dia, aqui é a Fulana, da creche X-particular-com-fila-de-espera-kilométrica. estou ligando para lhe avisar que surgiu uma vaga para sua filha. para fazer a matrícula precisamos da certidão de nascimento, identidade do responsável, comprovante de... - começa a me dar as informações sem que eu confirme interesse. interrompo.

- ah Fulana, muito obrigada, mas eu consegui vaga na ótima creche Y-pública, e minha filha já está no processo de adaptação.

- nossa, que sorte! mas você já conhece nosso serviço diferenciado? faremos um processo de adaptação muito mais personalizado com sua princesa.
- obrigada, Fulana. estou muito satisfeita com a creche Y-pública. o serviço deles é excelente, minha filha está feliz lá. não temos interesse. e obrigada por pagar seus impostos e contribuir, você também, com a educação da minha filha. bom dia.

nada contra o funcionário vestir a camisa da empresa - e, Fulana, se você está lendo isso, PARABÉNS! ligo lá logo mais pra te indicar a funcionária do mês -, mas me soou prepotente o "faremos um processo de adaptação MUITO MAIS personalizado com sua princesa". será que ela teria o mesmo discurso se no lugar de creche Y-pública eu tivesse dito creche W-particular-com-fila-de-espera-kilométrica?


fora o "sua princesa", que me dá arrepios. mas aí é só chatice minha mesmo. :p 

terça-feira, 10 de março de 2015

todo mundo tá feliz...

a mãe vai buscar a filha na creche, a cria sai falante contando tudo do dia. 'a Dóia comeu fijão','fez dodói', 'jugô bóia', 'tumô xuco' e desanda a cantar:

tudu mudu tá fiíz
tá fiíz!

tudu mudu tá fiíz
tá fiíz!

tudu mudu tá fiíz
tá fiíz!

e só na quarta vez que ela levantou os bracinhos no segundo "tá fiíz" é que a ficha caiu - ou meu inconsciente quis aceitar... - que se tratava de um clássico dos anos 80. eu que tava reclamando do lérigou, nem sonhava que logo ela me apareceria cantando Xuxa.




ins-pira.
ex-pira.
não-pira.

terça-feira, 3 de março de 2015

sobre o desmame natural... o meu.

Desfralde rápido. Bebê que dorme a noite toda. Criança que come bem e de tudo. Dentre as inúmeras situações ideais da maternidade está o desmame lento e gradual. Daqueles que a mãe diz orgulhosa que ‘fulaninho largou o peito sozinho... um dia não quis mais’. Mal aê, mas eu não acredito em você Amamentar é uma delícia e - tirando aqueles primeiros dias horrorosos, que nada se parecem com a Claudia Leite na foto do cartaz campanha de amamentação no posto de saúde – eu nunca tive maiores problemas. Dei sorte, eu sei. Muitas passam meses tentando, insistindo, algumas conseguem outras não. O mercado de leite em pó, mamadeiras e chupetas também não ajuda, sob o discurso de que ‘tudo bem, se você não conseguir nós oferecemos o que há de melhor pro seu bebê’ ele covardemente mina a autoconfiança das mulheres na sua capacidade de amamentar. Dora foi amamentada exclusivamente com leite materno e em livre demanda até os seis meses (Chupa mercado!) Mas eu queria mais. Eu queria poder dizer ‘minha filha mamou no peito até a hora que ela quis, aos poucos não foi querendo mais e um dia parou...’

tudo lindo na amamentação. #sqn

Logo no início entendi que, depois do esforço inicial de adaptação de ambos – fica a dica: bebê não nasce sabendo mamar! - a amamentação tem que ser boa para duas partes. É simbiose, se um lado não sente que tá ganhando com aquilo, dá ruim. No começo, além do sentimento maravilhoso ao ver sua cria engordando e crescendo só com o teu leite, amamentar dá onda. Juro. Melhor coisa era a sensação de relaxamento quando o leite descia, apagávamos inebriadas ela e eu. Mais tarde, quando ela já comia, eu ainda me deliciava com as brincadeiras dela enquanto mamava. Não há descrição fiel da sensação de acalmar um filhote com seu seio. O olho no olho. Tudo uma delícia. Amei amamentar!

Curti muito, tudo. Nunca lamentei acordar a noite pra dar o peito a ela. Até porque, durante algum tempo eu já nem acordava mais. Dormindo comigo ela vinha, se servia, e voltava a dormir. Nunca soube responder a famosa pergunta ‘quantas vezes ela acorda pra mamar a noite?’ Sei lá. Parei de contar na segunda semana de vida dela. Além de me orgulhar, é claro, dos olhares escandalizados quando eu sacava o peito no meio do metrô pra amamentar a menina de mais de um ano e meio. ‘Mas ela ainda mama!?’ ‘Mama sim!’

Tão ocupada levantando a bandeira da amamentação-exclusiva-prolongada-em-qualquer-canto-da-cidade e sambando na cara da sociedade-pró-mamadeira-com-farinha-Láctea-pro-bebê-dormir-a-noite-toda, eu demorei pra perceber que amamentar não tava mais legal pra mim. Não, não tô falando dela. Tô falando de mim. É, da mãe, a dona do peito. Pois é... Primeiro eram os seios doloridos e cheios de leite nos finais de semana que a cria ia pra casa do pai – que adianta você ter o fim de semana para você, se parte dele você passa ordenhando ou regulando a ingestão de líquidos para o peito não encher? Depois começou a me incomodar a forma como ela vinha pro peito não importasse se eu quisesse dar o peito ou não, puxando roupa, me deixando nua onde quer que fosse. Criatura ariana: quando ela quer, ela quer. E, por fim, aos quase dois anos da filha a amamentação começou a atrapalhar o meu sono. Irônico, né?

Foi difícil aceitar que estava ruim para mim. Mais ainda tomar a decisão de que ela pararia de mamar no peito. Muita conversa com ela. E vi que só conversa não surtiria efeito – ariana, lembra? Decidi que eu desmamaria minha filha sem ela querer. Mas por que eu havia chegado ao meu limite, e todo aquele trabalho inicial de entender que a coisa tinha que ser boa pras duas? Tão complexo se enxergar como parte ativa deste conjunto, tão custoso me dar direito a voto nessa decisão. Mas decidi. Também não foi num momento plácido, após muita reflexão e conversa. Foi num momento em que eu vi que não aguentava mais. Falei que não dava mais e ponto.


O desmame natural, lento e gradual aconteceu aqui? Sim. Mas foi o meu, que chegou aos poucos, sem que eu percebesse. Tendo aceito este. Por aqui estamos, há uma semana, no processo de desmame da cria. 

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

aborto: mais do mesmo.

não, eu não tenho nada de novo para falar sobre a tal campanha que tá rolando por aí ‘a favor da vida’ e contra a descriminalização do aborto.  mas também não, não conseguiria deixar de dar minha opinião, ainda que o principal propósito neste ato seja o meu próprio de refletir/elaborar/redigir sobre a questão.

meu raciocínio tem início na frase logo ali em cima. só eu acho paradoxal uma campanha que se diz a favor da vida pregar a criminalização de algo que, por carregar tal status, leva a morte inúmeras mulheres país afora? sim, pois enquanto você posta sua foto-gestante-pele-e-cabelos-maravilindos pra tua tia-avó curtir e perguntar quando vem o próximo, enquanto você escreve o quanto sua gravidez foi uma escolha, o quanto seu bebê é uma benção e a maternidade é dádiva na vida da mulher, tem mulher morrendo por não ter direito de escolha sobre o próprio corpo. pois é.

a meu ver a questão não é a vida. sou sempre a favor da vida. (sou daquelas que se encontra minhoca no meio da calçada busca o jardim mais próximo e a coloca numa sombrinha. sim, eu faço isso.) e, sendo a favor ou contra a descriminalização do aborto, não vejo alguém em sã consciência divulgando textos/fotos com um #contraavida por aí. não pega bem, né? tua tia-avó não ia curtir. vamos mais além?

perdoem-me se pareço minimizar toda a questão, mas esse mimimi e toda a discussão me dá uma leve impressão de ser levada de volta(?) aos anos 1960: surgimento da ´pílula anticoncepcional, mulheres ganhando autonomia sobre o próprio corpo, ‘sociedade-machista’ em choque. que preguiça disso. sério. alo-ôu! abortos já são feitos, quer você goste ou não. manter tal prática na criminalidade não fará com que eles deixem de ser feitos. descriminalizar só dará condições seguras para as mulheres seguirem em frente com a escolha que já estão fazendo. não é uma campanha pró-aborto. não vão sair distribuindo cartilhas nas escolas de 'como fazer seu próprio aborto'. descriminalizar significa regulamentar. qual é a do chilique por conta disto!?

o que mais me surpreende nisso tudo é ver mulheres a favor de que o Estado decida por elas o que fazer ou não com o seu corpo. oi? como eu vou discutir com uma MULHER que acha que as MULHERES não devem ter autonomia sobre o próprio corpo? e, mais que isto, me entristece a falta de sororidade nos discursos que vejo: “se sua mãe pensasse assim, você poderia não ter nascido”; “o que vai ter de mulher fazendo filho e abortando por aí”; “fazer é bom, né?”. essas frases foram tiradas de redes sociais, todas – e tantas outras – escritas por perfis femininos. querida, se minha mãe pensasse assim, ela deveria ter o direito de escolha sobre o seu corpo - eu daria outro jeito de chegar nesse mundo. vai além da minha capacidade de compreensão como uma mulher - mãe ou não - pode sinceramente crer que aborto vai virar método contraceptivo. é sério que essas mulheres não pensam que poderiam ser elas ou suas filhas/irmãs grávidas de alguém com quem não desejariam ter um filho? ou num momento delicado da carreira? ou simplesmente por que não desejam ser mães? é tão difícil assim colocar-se no lugar da outra? da que não pode bancar um filho, da que já é abandonada pelo pai da criança - é preciso de pai pra fazer, sabia? onde estão os pais ausentes nessa discussão? - ainda na gestação. você pode afirmar agora que nunca faria um aborto, parabéns. é um direito de escolha teu. deixe outras mulheres terem o delas também.

sendo mulher, e mãe de uma menina, sou a favor da vida, sou a favor da escolha, da autonomia da mulher sobre o seu corpo. quem deve decidir sobre o aborto ou não é a mulher. mas, como disse lá em cima, nada de novo. mais do mesmo.


quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

o maior clichê da psicologia infantil.


- Dora, vem botar o tênis.

- Dóia té tênix naum, a Dóia té xandália!
- não pode sandália filha, o tênis faz parte do uniforme da creche.
- té xandáia!
- tênis e meia.

- a xandáia!!
- isso mesmo, a sandália.

- naum, Dóia té tênix!



chegamos no momento exato do maior clichê da psicologia infantil! \o/

vou já providenciar um vídeo destes:


sábado, 7 de fevereiro de 2015

uma rapidinha da pracinha.

a criança sobe no escorrega mais alto da pracinha e congela lá de cima - de onde a mãe de um metro e meio não consegue tirá-la. a mãe chama:
- vem filha! - mas a criança permanece imóvel, olhando prum ponto fixo.
- naum.
- veeem fiiilha, dá a mão pra mamãe! - a mãe se põe na ponta dos pés, se estica toda e ainda assim não chega nem perto de alcançar a cria. 
- a moxa! - a menina aponta.
- que moça? - a mãe indaga.
- a moooxa mamain! - a cria insiste apontando pro nada.
- não tem moça, Dora. desce logo daí - a mãe começa a perder a paciência, mas segue esticada tentando alcançar a cria.
- a Dóia vai dexer naum. a moxa! - segue apontando pro nada.
a mãe começa a pensar em tudo o que andou lendo sobre mediunidade em crianças pequenas. sobre como eles são sensitivos e começa a aceitar que, para a criança, talvez tenha mesmo um moça ali. engole o ceticismo e segue na batalha pra tirar sua filha do alto da torre do escorrega:
- filha, mostra pra moça como você sabe escorregar. diz "oi, moça! tudo bem?" dá tchau pra moça. você quer brincar com a moça? - tenta de tudo.
- moxa não, mamain. mo-xa! tá moiado da chuuuva!



não tinha espírito nenhum. era só uma poça d'água no fim do escorrega.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

sinuca de bico

O dicionário nos dá:
desmamar 

des.ma.mar 
(des+mamar) vtd 1 Fazer perder o hábito de mamar; ablactar, destetar: "Entretanto cresceu o menino e foi desmamado" (Bíblia, Gênesis, 21, 8 - trad. do Pe. Matos Soares). vpr 2 Deixar de mamar, perder o hábito de mamar. vtd evpr 3 Emancipar(-se).


E ainda:
desfraldar 

des.fral.dar 
(des+fralda+ar2) vtd 1 Tirar a fralda a. vtd 2 Desferir, largar, soltar ao vento (velas): "A vela desfraldando, o céu ferimos" (Luís de Camões). vtd 3Despregar, soltar: Desfraldar uma bandeira. vtd 4 Apresentar um ideal político, religioso etc.: Desfraldou a bandeira do abolicionismo. vpr 5Tremular: Bandeiras desfraldavam-se pelos mastros


são inúmeros os métodos desenvolvidos para passar por um processo ou por outro. salvo os que nunca mamaram no peito ou nunca usaram fraldas, todos nós passamos por isso algum dia e, alguns, passaram/ão por eles também no papel de pai/mãe. longe de querer discutir métodos, venho aqui chamar atenção para duas partes distintas desses processos. 

lendo por aí, descobri que uma dica comum de quem está fazendo o desmame noturno da cria (o que consiste basicamente em não amentar mais durante a noite) é oferecer água quando a criança acorda pra sanar uma possível sede no meio da madrugada. [a criança bebe água a noite, guardem essa informação]. e, em relação ao desfralde, quem não se lembra de dar boa noite pra mãe e a mesma perguntar se “já escovou o dente? Já fez xixi?” pois então, nada melhor para evitar escapes durante a noite do que esvaziar a bexiga. [bexiga vazia, guardem esse ponto tb].

cada criança tem seu tempo e não há idade exata para abandonar nenhum dos hábitos. (já falei um pouco de como rolou o desfralde aqui) no entanto, o que vejo por aí são crianças que desmamam antes de desfraldar. e aí surge a minha questão, me sinto na maior sinuca de bico materna so far: minha cria desfraldou antes de desmamar. daí alguém por favor me conta como é que faz pra dar água pra desmamar a noite, se ela não pode encher a bexiga por correr o risco de fazer xixi na cama?



e agora? sai dessa Mister M.