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segunda-feira, 7 de março de 2016

recado grávido

prezado ser-humano-não-gestante,
se você vê uma gestante fazendo algo que - você acha que - ela não deveria fazer por conta da gestação e sente uma necessidade incontrolável de alertá-la sobre suas atitudes, observe o tamanho da barriga. pense que quanto maior o tamanho da barriga, maior a chance dela já ter ouvido o que você tem a dizer a ela. se, ainda assim, você optar pelo alerta, faça-o de maneira gentil e simpática.
ao final do seu discurso, deseje tudo de bom a gestante e seu bebê e pare por aí. nenhuma mulher grávida gosta de ficar ouvindo histórias trágicas de como você conhece "n" mulheres que perderam bebês de formas banais ou trágicas.
grata pela atenção,
ser-humano-gestante-com-níveis-perigosamente-baixos-de-paciência

(texto original de mar/13 
- 35 semanas de gravidez)

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

carta aberta a quem não anda pra cima e pra baixo carregando um bebê

Prezados seres habitantes de um universo paralelo ao meu onde você não carrega um bebê por aí com você a onde quer que você vá,
este texto é para você, que encontra na rua uma mãe com um simpático bebê sorridente e acaba interagindo com a dupla. Seguem algumas dicas de etiqueta nesta interação:
- pode elogiar a vontade, mas se não tem algo positivo para falar? Não fale. Histórias sobre como a prima do ex-namorado da sua vizinha perdeu de forma trágica um filho com a mesma idade dificilmente vão interessar. Pode ficar só interagindo com o bebê, não tem problema.

- evite colocar a sua mão na mão do bebê. Bebês estão passando pela fase oral, colocam tudo a boca. Sua mão pode até estar limpa, mas a mãe da criança não sabe disso e não vai fazer muita diferença se você falar que acabou de lavar a mão.
- evite passar a mão na barriga de uma grávida que você nunca viu na vida. Acha isso um exagero? Imagine a situação sem a mulher estar grávida. Eu sei o milagre da vida é lindo, mas você sairia acariciando a barriga de estranhos se não fosse o bebê ali dentro? Se faz muita questão de passar a mão, peça. A mãe ainda é a dona da barriga.
- em hipótese alguma ofereça algo para o bebê comer sem antes perguntar a mãe se ele já come ou se ele pode comer aquilo que você quer oferecer. (Isso pra mim vale até para crianças maiores.)
- por favor, nunca pergunte “o que é que ele tem?”, “o que tem de errado com ele?” ou similares quando o bebê está chorando. O que quer que esteja acontecendo, a mãe provavelmente já sabe o que é e já está fazendo o possível para resolver. Se o choro do bebê te incomoda, se retire.
- também não tente adivinhar. Frases como “É fome, por que você não dá a mamadeira?”, “Tá com sono, né? Olha só como está tarde!” ou “Ela não está com frio? Olha a perninha de fora” são comentários absolutamente dispensáveis. Como dito ali em cima, a mãe já sabe o que está acontecendo e já está tomando as providências.
- não diga o que você acha. Sério. Mesmo que você tenha parido 10 filhos e criado mais 10 que foram largados na tua porta e todos eles estejam bem de vida, saudáveis e bem resolvidos. Ainda assim, quem sabe o que é melhor para aquele bebezinho em questão é a mãe dele.
- ofereça ajuda, mas não insista. Por mais enrolada que aquela mãe pareça estar, ela está acostumada a fazer o que quer que esteja fazendo. E se precisar de ajuda ela vai logo aceitar, ou até pedir. Insistir em ajudar enche o saco.
Bom senso, minha gente. Eu sei que não vem de fábrica. Mas pense que você é um estranho e o bebê é a coisa mais importante da vida daquela mãe.
E que fique claro que essas são observações para quando você é um estranho. Amigos e família servem para dar pitacos e interagir! 
Emoticon smile
ass. uma mãe que esteve junto a uma estranha sem noção por 40min num engarrafamento com a filha chorando de sono

segunda-feira, 27 de julho de 2015

quando foi que a militância pelo direito ao parto normal virou luta contra as mulheres que fizeram cesáreas?

querida mulher que passou de forma consciente por uma cesariana para que seu filho nascesse,

a luta a favor do parto normal não é contra você. 

quem busca e consegue um parto normal - ainda que esteja sujeita uma série de violências obstétricas - não acha que você ama menos o seu bebê e ela ama mais o dela por que você optou passar por uma cirurgia e ela não. é serio. se tua via de parto foi respeitada e a dela também, parabéns! ambas são privilegiadas por isso, você sabia? sim, pois dentre a clientes de planos de saúde, mais de 60% das mulheres começam sua gestação afirmando que querem ter seu bebê por parto normal, sabemos que menos de 20% tem seu parto por via vaginal. que tipo de escolha é essa?
como podemos falar de respeitar a vontade da mulher quando essa ‘opinião’ muda tão radicalmente em algumas semanas?  existe um mercado sustentado por essas cirurgias pré-agendadas – e que, não raro, são ditas ‘de emergência’ para a gestante e sua família. um hospital que ganha mais se tem previsão exata de quantas pacientes passarão pela sala de parto por dia. equipes médicas ganham que mais se planejam bem seu tempo dentro do hospital e dentro do consultório. imagine o que gasta uma paciente que opta por parir naturalmente em contraste com uma que passa por uma cirurgia onde há a necessidade de incontáveis recursos hospitalares. cabe a nós questionar o funcionamento desse mercado e refletir o quão ético é seguir alimentando o mesmo, não?
é indiscutível que cabe a mulher a total autonomia sobre o seu corpo. e não somente no parto, desde o seu nascimento. e essa autonomia passa pela consciência. meninas precisam conhecer seus corpos, aprender que podem se tocar, se conhecer, se masturbar e não ter vergonha disso. saber sobre reprodução vai muito além de contar os prováveis 28 dias do ciclo menstrual e colocar camisinha em banana num curto tempo de aula de ciências no oitavo ano. ensinemos as nossas meninas sobre o método Billings, alternativas aos absorventes de farmácia – absorventes de pano, coletores -, sobre formas de lidar com as cólicas. arranquemos o rótulo tragicômico da tensão pré-menstrual. ensinemos a elas a lidarem com seus corpos em vez de temerem os mesmos.
nós crescemos ouvindo como o corpo feminino é defeituoso: somos o sexo frágil; somos muito magras ou estamos acima do peso; nossos peitos são muito pequenos, muito grandes, caídos, diferentes entre si; o quadril é muito largo ou muito estreito. não há corpo feminino perfeito possível! o que nos é apresentado na mídia chega a ser risível, se olharmos atentamente. buscamos a cintura da Cinderela ou os seios da Lara Croft? tudo isso diminui a confiança da mulher sobre o próprio corpo. e o momento da gestação/parto/amamentação é só mais um momento onde olhamos para nós mesmas desacreditadas. quem vai se entender capaz de parir quando tem para isso uma ferramenta tão imperfeita e tão falha como o corpo feminino?
mulheres têm a confiança minada, pela ideia de que seus corpos são falhos e incapazes (ou elas mesmas o são, por consequência) e precisam de ajuda médica. como a mulher pode “escolher” se os médicos estão direcionando essa escolha? se os convênios possuem taxas de quase 90% de cesáreas há algo de muito grave nos corpos das mulheres ou no atendimento obstétrico?
o movimento da humanização do parto – que é plural e polifônico como todo movimento social – de modo geral propõe justamente divulgar informação para que a mulher tenha autonomia em relação ao seu corpo e seu parto. não é uma luta anti-escolha, muito menos anti-mulher-que-faz-cesárea, mas a favor da autonomia da mulher.
estamos jogando no mesmo time.


Ana Luz



colaboração: Marina Nucci

sábado, 9 de maio de 2015

seja mãe, não tenha razão.

positivo. parabéns! aproveita a barriga. cuidado pra não engordar muito. tem que ser parto normal, é melhor pra mãe e pro bebê. marca logo a cesárea, vai sofrer pra quê? 

isso mesmo, tem que amamentar. leite materno é amor líquido, essencial para o vínculo entre a mãe e o bebê. dá logo a mamadeira, o pai também tem direito a esse momento. seu leite é fraco. tá chorando, é sede, dá um gole d’água. esse menino dorme demais. mas ainda não dorme a noite inteira? nessa idade meu filho já ia direto até de manhã. olha só, já tá engatinhando! tira ele do chão, tadinho. dá só um biscoito, pra não aguar. você perde esse tempo todo fazendo comida pra ele jogar no chão? você deixa ele muito solto. fica tempo demais no colo. bota na creche, que melhora. tadinho, fica o dia todo na creche! você tem coragem de deixar em casa com babá? você está em casa cuidando dele até agora? mas e a sua vida? não vai voltar ao trabalho? a mulher não pode esquecer da vida por causa de filho. vai sair pra se divertir... que você está fazendo na rua uma hora dessas, não tem filho pequeno pra cuidar?

ele já tá na escola tão novinho? escola tem que ser tradicional, pensar no futuro. essa escola é muito rígida, criança tem que ser criança. não pode dar tudo o que o menino pede, não vai aprender a dar valor as coisas. só um presentinho por bom comportamento não faz mal a ninguém. aniversário de criança tem que ser comemorado. com o dinheiro que ela gastou nessa festa eu teria feito uma viagem. toda menina gosta de rosa. por que tudo dela tem que ser rosa? deixa um minuto na frente da tv pra você descansar. essa criança assiste televisão demais. você tá criando essa criança numa bolha. você é dura demais com ele. pra que tanta atividade extra curricular?  como assim ele passa a tarde em casa sem nenhuma atividade? ele não faz aula de nada?

já sai a noite tão nova? deixa a menina aproveitar a adolescência. você não dá limites, a vida vai ensinar pra eles. deixa de ser careta. deve ser triste vê-los saindo de casa tão cedo. eles ainda moram com você? e então, quando vêm os netos?



quinta-feira, 26 de março de 2015

como viemos ao mundo eu e ela.

Foi hoje, ou ontem(?) que vi um post onde falaram sobre kristeller. Comentei de pronto: “sofri a manobra e sofro com isso até hoje”. A parte do “sofro com isto até hoje” caiu no meu colo como um tijolo. Só ali percebi que a lembrança do meu parto também me doía. E, nesses quase dois anos, eu ainda não tinha me dado conta disto, já que a minha resposta usual é de que me orgulho – e muito! – do meu parto normal.  Contextualizemos, então:

Eu, 26 anos, inesperadamente grávida do namorido mergulho no mundo da pré-maternidade. Assistida por uma GO* fofinha, era minha médica havia quase dez anos. Lá pelas 20 e muitas ou 30 semanas eu percebo seu perfil clássico cesarista – “Vamos nos preocupar com o parto mais pra frente, Aninha?”, “O pai dela é alto, né? E você tão pequenininha, como faremos isso, hein?”, “Quarta feira é o dia da Dra. atender as gravidinhas e fazer os partos.”, “Parir de cócoras é coisa que só as índias sabem fazer, a mulher moderna não tem musculatura apropriada para isso”, etc - e ensaio uma troca de médico. Não dá certo. Minha DPP** tampouco ajuda, já que caía exatamente na semana santa. Eu volto a minha médica certa de que é melhor ter alguém que saiba com quem está falando caso eu ligue em TP*** no meio da madrugada (o que, por acaso, foi exatamente o que aconteceu). Sigo nadando contra a corrente o máximo que conseguiria naquele momento com as informações que eu tinha até então. Vale lembrar que fui a primeira das minhas amigas a engravidar e, na minha família, o último “bebê” tirou carteira de motorista este ano. Então não tinha em quem me espelhar. Desbravei – e ainda desbravo - eu mesma o caminho que queria trilhar. Nunca duvidei que ela nasceria de parto normal. Apesar de vir de uma família que se divide entre histórias cesáreas ou partos normais desastrosos eu respondia prontamente a qualquer questionamento sobre o tema: “ela entrou por vias normais, vai sair por vias normais.” E, vez por outra, justificava: “tenho pânico de agulha e ninguém vai me cortar”. Por fim, chegamos às 37 semanas de uma gravidez de notável tranquilidade. Nem vomitar nos primeiros meses eu vomitei. Pouca azia. Algum desconforto com chutes nas costelas ou inchaço nos pés. Mas absolutamente nada que indicasse uma cirurgia, necessária ou não.

Dia 25 de março, uma segunda feira, fomos, o namorido e eu, ao cinema. Completaríamos 38 semanas na quarta feira. Não sei dizer o filme, mas lembro de pegar o celular a cada dez minutos, pois já sentia algumas contrações, e as contava, em segredo. Não me preocupei, já que outra coisa que ouvi bastante durante a gestação é que o primeiro filho nunca chega com 38 semanas. Recebi um telefonema do consultório da GO:

“Ana, você tem consulta amanhã, né?”
“Sim!”
“Vamos deixar para quarta, que é o dia do seu parto?”  (!!!)
“Quarta completo 38 semanas, não é o dia do meu parto. Mas pode remarcar a consulta sim.”

Com a consulta reagendada, na terça, fiz aula de hidroginástica, fui ao Saara comprar qualquer-coisa-indispensável-ao-bem-estar-do-meu-bebê-mas-que-agora-já-não-me-lembro-mais, tomei sorvete, um dia normal. Na quarta feira eu estava, pela manhã, no consultório. Contei pra ela das contrações sem muito ritmo desde segunda feira, disse que me sentia bem. Ela fez o toque – fazia em todas as consultas, tão logo a barriga começou a crescer – e me mandou pra maternidade fazer alguns exames “de rotina”: “Aninha, essa mocinha pode ficar aí mais uns dias, mas pode resolver vir logo também”. Dentre as guias de exames: uma de internação.

Fui pra casa dos meus pais. Almocei e me preparei pra ir a maternidade. Ambos insistiram que eu fosse acompanhada. Mas algo que surgiu em mim desde o início da gravidez foi uma independência que nunca tive. Dispensei a companhia. Dei um abraço longo no meu pai e sorri dizendo: “sua netinha tá querendo chegar”. Nunca me esqueço desse abraço meio sem jeito e emocionado. Parti pra Perinatal de Laranjeiras.

Passei a tarde lá fazendo toda sorte de exames. Tudo normal. Tu-do. Não foi surpresa, nada diferente das 38 semanas anteriores. Todos que me atendiam repetiam animadamente que logo eu estaria com ela nos braços ou poderia ficar ali dentro mais uns dias. Por fim, liguei pra médica e passei por telefone mesmo os resultados. Ela me sugeriu que eu ficasse lá que ela orientaria as enfermeiras pra me colocar no sorinhoe já “resolvia isso logo”. Eu agradeci. Disse a ela que voltaria no dia seguinte ao seu consultório.

Vejam bem, eu, em momento algum, percebi a forma como ela conduzia as coisas e ao me recusar a ficar lá só o fiz por realmente acreditar que minha filha não chegaria tão rápido. Mal sabia eu do que estava me livrando. E só descobriria, algumas poucas semanas depois, o que significava o tal sorinho.

Voltei pra casa dos meus pais. Já com contrações um pouco mais fortes. Aguardei o namorido chegar e iriamos pra casa – do outro lado da cidade – juntos. Me lembro de estar deitada na cama dos meus pais quando percebi que o desconforto virava dor. Chegamos em casa por volta das dez da noite. Contávamos juntos as contrações. Em algum momento eu fui para o chuveiro. Puro instinto, nunca tinha lido nada sobre água quente melhorar a sensação das contrações. Fiquei lá por não sei quanto tempo. Ele diz que cheguei a dormir um pouco sentada num banco com a água caindo nas minhas costas. Outra cena que ainda vem a minha memória é o longo corredor do apartamento onde morava, eu andando de uma ponta a outra e parando pra sentir as contrações, me agachava, me alongava, rebolava. Alguma força maior me orientou naquele momento, alguém me guiava por aquele portal. Ainda que sem conhecimento literal da situação eu a vivia inteira- e intensamente. Saindo do chuveiro fui pra cama pensando “vou logo dormir, pra ir amanhã cedo ao consultório”. Quanta inocência! Me intriga a forma como eu, totalmente entregue e consciente do meu corpo durante o trabalho de parto não tinha ciência plena de que minha filha já estava a caminho. Talvez menos de 15 minutos deitada na cama ouvi um “ploc”. A bolsa estourou. Meu primeiro pensamento “Bosta! Tanto tempo no chuveiro, a bolsa estoura na cama! Logo hoje que foi dia da faxineira!” Só então aceitei que não demoraria para ter minha filha nos braços.

O que segue depois disso são flashes. Namorido demorou pra conseguir falar com a médica. A mala não estava completamente pronta. Era de madrugada e também não foi muito fácil achar um taxi. Apesar disso: tranquilidade, felicidade e ansiedade com o momento, concentração total no corpo. Fechei a mala. A médica não atendia o celular. Não atendia em casa. O auxiliar falou que ela tinha acabado de sair da Perinatal, passou o telefone de casa. Em casa, uma tia idosa, disse que ela estava no banho, pois havia acabado de chegar. Daria o recado. Conseguimos um taxi. Eu pedia que ele fosse devagar, cada movimento mais brusco do carro doía e nesse momento não tinha concentração que ajudasse.

Chegamos a Perinatal por volta de 4h da manhã. Só sei o número por conta da etiqueta que ganhamos. Lembro de ficar feliz por encontrar um segurança sorridente e de me irritar com a recepcionista que me perguntava como eu estava me sentindo. A essa altura, os avós já estavam avisados. Fui levada pra sala do primeiro atendimento onde a moça me deu Buscopan para as contrações. Meu sarcasmo natural me fez rir na cara dela: “é sério que você está me dando um remédio que eu tomo pra cólica?”. Ela sorriu sem graça. No hospital perdi parte do meu controle sobre o meu corpo e a conexão com seja-lá-o-que-estava-me-ajudando em casa. Parece o avental aberto nas costas me dava uma obrigação moral de ficar deitada e isso não funcionava. Em algum momento meus pais chegaram. Lembro vagamente das suas caras de pânico ao me ver em TP. Estavam claramente desconfortáveis com aquilo e não souberam disfarçar. Minha mãe, dias mais tarde, admitiu que me ver em TP foi das coisa mais difíceis pela qual ela já passou. Ela viveu duas cesáreas. Sobre a médica, algum tempo já na maternidade e nem sinal dela. Namorido tenta, sem sucesso, fazer alguma massagem pra me aliviar. E reclama, em algum momento, que estou apertando a mão dele muito forte. Oi?

Em algum momento a médica chega. “Aninha, vamos te levar pro quarto.”, sumiu. Subi pro 613. Falaram em lavagem. Eu falei logo que queria ir ao banheiro. Fui. A médica apareceu de novo, já está na hora de ir pra sala de parto, foi chamar o maqueiro. Eu volto a ter um pouco do controle que havia perdido. Sinto as contrações, mas elas não doem tanto. Tudo respiração e foco. Muito foco. O maqueiro demora dias. E quando ele chega, eu o odeio, me deitam de novo. Namorido volta a “existir” quando eu noto sua ausência por um longo período, me avisam que ele foi colocar as roupas pra entram no centro cirúrgico. Fico no centro cirúrgico sozinha, deitada em posição ginecológica aguardando a equipe e o pai da minha filha. Sinto frio. O anestesista chega para o que foi, sem dúvida, o pior momento do parto: me vira de lado, orienta o namorido a me “segurar firme” e tenta duas ou três vezes até acertar o ponto da anestesia. Lembra lá em cima quando disse que tenho pânico de agulha? Pois é.

A partir daí é tudo muito rápido e intenso. Começo a ser orientada a fazer força sem sentir mais nada. Não sinto dor. Sinto a médica fazendo o corte da episiotomia sobre a qual não falamos. O anestesista, um homem que eu nunca tinha visto até então, apoia um braço sobre a minha barriga e com a outra mão apoia em um dos meus seios. Namorido segura minha mão sem atentar ao que acontecia. Por um micro segundo me sinto violada e não entendo o porquê daquilo, mas minha atenção se volta ao que está acontecendo “embaixo dos panos”. Empurro (empurram por mim?). Ela nasce. Não chora. “Surreal! Surreal! Surreal!” repito incontáveis vezes. Peço que ela venha imediatamente pro meu peito – lembrei de ter lido como isso era importante e fiz muita questão. Mas ela não chora e não pega o peito. “Por que ela não chora?” eu penso “Bebês tem que chorar quando nascem! O que há de errado?” e deixo que a levem de mim. Hoje percebo quão breve foi aquele momento, não dei tempo pra ela se perceber nascida. Ela chora. Eu me sinto aliviada. Peço para ver a placenta – que foi empurrada para fora pelo anestesista. Parte da equipe se retira levando minha bebê. O pai a segue. Na sala ficamos eu, a GO e o anestesista que preenche algum formulário de uma cirurgia anterior. Na conversa entre eles ela declara “nossa, cortei muito! Passava um elefante aqui!” e ri. Eles me parabenizam e saem me deixando sozinha novamente. Penso em tudo aquilo que acabou de acontecer. Algum tempo depois levam minha maca para a porta do elevador onde eu fico por mais algum tempo. Consigo ver o quadro com as taxas de cesárea da maternidade. Me orgulho do meu parto normal. “Eu consegui!” penso. Chego no quarto. Meus pais me recebem com carinho. Vou ver minha filha cerca de três horas depois.


O parto normal me empoderou de tal forma que acabei tendo um puerpério muito tranquilo. Encarei com força e serenidade as dificuldades das primeiras semanas. Mas esse empoderamento me fez buscar informações e descobrir cada violência que sofri no meu parto (a)normal. Não me arrependo, pois sei que a mulher que pariu a Dora fez o melhor que pode com as informações que tinha naquele momento.


*GO - ginecologista obstetra
** DPP - data provável do parto
*** TP - tabalho de parto

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

aborto: mais do mesmo.

não, eu não tenho nada de novo para falar sobre a tal campanha que tá rolando por aí ‘a favor da vida’ e contra a descriminalização do aborto.  mas também não, não conseguiria deixar de dar minha opinião, ainda que o principal propósito neste ato seja o meu próprio de refletir/elaborar/redigir sobre a questão.

meu raciocínio tem início na frase logo ali em cima. só eu acho paradoxal uma campanha que se diz a favor da vida pregar a criminalização de algo que, por carregar tal status, leva a morte inúmeras mulheres país afora? sim, pois enquanto você posta sua foto-gestante-pele-e-cabelos-maravilindos pra tua tia-avó curtir e perguntar quando vem o próximo, enquanto você escreve o quanto sua gravidez foi uma escolha, o quanto seu bebê é uma benção e a maternidade é dádiva na vida da mulher, tem mulher morrendo por não ter direito de escolha sobre o próprio corpo. pois é.

a meu ver a questão não é a vida. sou sempre a favor da vida. (sou daquelas que se encontra minhoca no meio da calçada busca o jardim mais próximo e a coloca numa sombrinha. sim, eu faço isso.) e, sendo a favor ou contra a descriminalização do aborto, não vejo alguém em sã consciência divulgando textos/fotos com um #contraavida por aí. não pega bem, né? tua tia-avó não ia curtir. vamos mais além?

perdoem-me se pareço minimizar toda a questão, mas esse mimimi e toda a discussão me dá uma leve impressão de ser levada de volta(?) aos anos 1960: surgimento da ´pílula anticoncepcional, mulheres ganhando autonomia sobre o próprio corpo, ‘sociedade-machista’ em choque. que preguiça disso. sério. alo-ôu! abortos já são feitos, quer você goste ou não. manter tal prática na criminalidade não fará com que eles deixem de ser feitos. descriminalizar só dará condições seguras para as mulheres seguirem em frente com a escolha que já estão fazendo. não é uma campanha pró-aborto. não vão sair distribuindo cartilhas nas escolas de 'como fazer seu próprio aborto'. descriminalizar significa regulamentar. qual é a do chilique por conta disto!?

o que mais me surpreende nisso tudo é ver mulheres a favor de que o Estado decida por elas o que fazer ou não com o seu corpo. oi? como eu vou discutir com uma MULHER que acha que as MULHERES não devem ter autonomia sobre o próprio corpo? e, mais que isto, me entristece a falta de sororidade nos discursos que vejo: “se sua mãe pensasse assim, você poderia não ter nascido”; “o que vai ter de mulher fazendo filho e abortando por aí”; “fazer é bom, né?”. essas frases foram tiradas de redes sociais, todas – e tantas outras – escritas por perfis femininos. querida, se minha mãe pensasse assim, ela deveria ter o direito de escolha sobre o seu corpo - eu daria outro jeito de chegar nesse mundo. vai além da minha capacidade de compreensão como uma mulher - mãe ou não - pode sinceramente crer que aborto vai virar método contraceptivo. é sério que essas mulheres não pensam que poderiam ser elas ou suas filhas/irmãs grávidas de alguém com quem não desejariam ter um filho? ou num momento delicado da carreira? ou simplesmente por que não desejam ser mães? é tão difícil assim colocar-se no lugar da outra? da que não pode bancar um filho, da que já é abandonada pelo pai da criança - é preciso de pai pra fazer, sabia? onde estão os pais ausentes nessa discussão? - ainda na gestação. você pode afirmar agora que nunca faria um aborto, parabéns. é um direito de escolha teu. deixe outras mulheres terem o delas também.

sendo mulher, e mãe de uma menina, sou a favor da vida, sou a favor da escolha, da autonomia da mulher sobre o seu corpo. quem deve decidir sobre o aborto ou não é a mulher. mas, como disse lá em cima, nada de novo. mais do mesmo.