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quinta-feira, 28 de março de 2019

uma mão inteira, mais um.

Que você nunca perca esse olhar que nos engole com a sua curiosidade de tudo.
Que nunca deixe de sorrir largo com esses sorrisos que a gente chega a ouvir o som da sua gargalhada quando vê uma foto.
Que nunca cesse essa tua energia que dá choque na gente e carrega quem tiver junto.
Que você nunca pare de criar e contar suas histórias.
Que siga perguntando tudo o tempo todo.
Que você jamais perca sua combatividade. 
Que você siga se fantasiando e sendo quem você quiser ser.
Que eu tenha saúde pra seguir te acompanhando.
Que eu saiba identificar os momentos que você não precisa que eu te acompanhe.
E que sigamos crescendo juntas. pq desde que você chegou, que eu não faço outra coisa se não me reinventar pra caber nesse papel que caiu no meu colo há 6 anos atrás.

quarta-feira, 28 de março de 2018

o saber-se amada.



na sua última noite com 4 anos, você me diz o seguinte:
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'mamãe, sabe quem é minha melhor pessoa da vida?'
'quem filha?''você é minha minha melhor mamãe... e tem o meu melhor papai... e minha melhor vovó... e minha melhor outra vovó... e meu melhor vovô... e meu melhor outro vovô... e minha melhor bisa... e meu melhor biso...'
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filha minha, a gente passa a vida mudando de ideia. e depois que tem filho, as ideias parecem que, ao mesmo tempo que tem mais peso - e que deveriam ser mais definitivas -, ficam muito mais volúveis na medida em que a maternidade deixa de ser teoria e vira prática. eu já quis e desquis um tanto de coisas pra você. e olha que só estamos nessa há cinco anos. já desejei umas coisas pra nós duas que hoje em dia passam bem longe da realidade que vivemos. sei que boa parte do que considero bom ou ruim pra você vai mudar um pouco ou até bastante - a ponto, inclusive, do bom virar ruim e vice-versa.  
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enfim, a volubilidade dos meus quereres maternos (já) não me incomoda (mais). a real é que nesse ir e vir de ideais e decisões sobre dar o peito ou a mamadeira, colocar na escola careta ou na escola prafrentex, liberar a bala Juquinha ou insistir na bala de alga, ignorar o puta merda ou falar só putz grila na sua frente... tem uma vontade que sobrepõe todas as outras. um desejo que vem de lá de dentro. que parece existir desde o momento que te percebemos a caminho e que vai seguir para além da nossa existência aqui nesse plano: quero que você se saiba amada.
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sei do clichê que é sua mãe repetir pra você diariamente um 'filha, te amo!' e ver você fazer cara de 'tá bom... tá bom... agora me larga...', mas é inevitável! te amo quando tô pedindo pelo-amor-das-deusas que você coma um pouco mais rápido. te amo quando você tá na casa do seu pai e só consigo falar com você rapidinho. te amo quando chego tarde pra te buscar na escola. te amo quando pego um avião pra cruzar um oceano sabendo que só te verei semanas depois. te amo quando pulo uma página do livro de antes de dormir pra história acabar logo.
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mas para além disso, nesse seu quinto aniversário queria registrar meu desejo de que você se saiba amada por outras pessoas além da sua mãe e do seu pai. tem um tanto de gente que te quer bem, meu amor. uma rede incrível, que a gente constrói e nutre diariamente ao longo destes 5 anos e que eu quero continuar nutrindo e sendo nutrida por ela por muitos anos. 
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meu desejo neste instante é que você sempre tenha uma rede. que você saiba reconhecer quem te quer bem e estar com estas pessoas. que saiba cuidar delas e se deixar ser cuidada por elas. pelo que você me falou hoje antes de dormir, você já se sabe muito amada. que seja sempre assim, meu amor.
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feliz ano novo.   

segunda-feira, 27 de março de 2017

pilota-de-avião-mãe-princesa-bibliotecária-cantora-de-filme-super-heroína faz 4 anos.

e aí, no que pareceu um sopro de tempo, você chega aos quatro anos. lembro de ter você no colo ainda bebê, e de olhar para aquelas enormes crianças de quatro anos, pensar que para suas mães a maternidade já não era a novidade nenhuma, que elas deviam tirar tudo de letra, saber exatamente o que estavam fazendo e ter plena segurança sobre suas escolhas. tolinha, eu. amanhã completamos quatro anos dessa vida de mãe e filha e eu sigo achando tudo novidade, vivendo tudo intensamente.
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há três anos, nesta data, eu revivo aquela noite do seu nascimento. são as sensações, os cheiros, os sons de quando você vinha vindo. a dor era intensa, como se eu fosse virar do avesso. e foi mesmo isso que tive que fazer pra receber você, para ser sua mãe. renascer, me reconhecer, me construir outra. aquela manhã de quinta feira era só o começo. que delícia lembrar. e que delicia te contar a história do seu nascimento, que você agora tanto gosta de ouvir.
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você pede para ouvir sobre como era quando você era bebê e morávamos no Grajaú. vive curiosa perguntando porque a Chuchu é mais velha que você. adora ouvir sobre como descobrimos que você seria um bebê cabeludo numa ultrassom nas 32 semanas de gestação.
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aliás, você adora histórias. gosta de ouvi-las, de criar as suas próprias e contá-las. adora ser o centro das atenções e, pro meu descontentamento quase resignado, ama histórias de princesas e príncipes. minha filha, você veio ao mundo para me ensinar o verdadeiro sentido da expressão “cuspir pra cima”.   
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garotinha que não para nem por um minuto, você parece viver num musical, dança e canta o-tem-po-to-do. quando você era bebê eu, seu pai, seus avós, todos cantávamos pra você o tempo todo... e brincávamos nos perguntando como seria quando você descobrisse que a vida não é um musical. às vésperas do seu quarto aniversário parece que você ainda não descobriu. e torço para que isso não aconteça nem tão cedo. você vive em La La Land! e quase sempre é uma delícia viver nesse mundo musical contigo.
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o tempo passa rápido demais, nossas conversar são cada vez mais complexas – e tão bacanas! você já me perguntou coisas que eu não esperava ter que responder antes dos 10 anos, coisas que fazem ‘de onde vem os bebês?’ parecer fácil de responder. aproveito pra ir reelaborando minha visão de mundo a cada pergunta cabeluda que surge.
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além delas ainda tem as perguntas que me colocam num jogo de quiz constante: quantos ônibus passam num dia? por que a Chuchu tem rabo? o que é troco? por que o chão passa embaixo do nosso pé quando a gente anda? por que o mar é salgado? para onde vai toda essa gente do metrô? é sua sede de conhecimento e curiosidade sem fim!
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cresce, minha menina. cresce que o mundo é seu. vai ser o que quiser na vida... seja a pilota-de-avião-mãe-princesa-bibliotecária-cantora-de-filme-super-heroína que você quer ser. se depender da tua mãe, você terá uma companheira pra toda a vida, pra te apoiar e te acolher sempre.
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mamãe te ama. ama a mulher que se tornou com a sua chegada. e tá amando ver a menina forte e empoderada que você está se tornando.
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feliz 4 anos.
sigamos juntas, meu amor.

segunda-feira, 28 de março de 2016

pro seu terceiro aniversário.

"Quando me chamou, eu vim
Quando dei por mim, tava aqui
Quando lhe achei, me perdi
Quando vi você, me apaixonei..."


passei semanas cantarolando essa música após o seu nascimento, há três anos atrás. sua chegada foi um chamado, que sei lá de onde veio, mas não existia possibilidade de dizer que não. antes dele passei anos refletindo a possibilidade da maternidade - as vezes tendo certeza de que queria ser mãe, outras certa de que não. e aí que num susto - ao menos no plano material -, descobri você aqui dentro.

é meio querer explicar o inexplicável, mas a sensação é essa mesmo: de que quando me dei conta você já estava sendo gerada aqui dentro. e enquanto tentava entender a gestação... aproveitá-la... pesquisar sobre tudo... mudar de casa... arrumar seu quarto... montar enxoval... seguir conselhos... dormir... pisquei e... quando me dei conta você já estava aqui. e eu já não era mais eu. e logo que você nasceu eu também ainda não era a sua mãe. quem eu era? sem que eu pudesse me dar conta do quão rápido o tempo passava, eu nascia mãe e você foi brotando esse pézinho de sorrisos e vontades. bebê que acordava sorridente, que nunca quis dormir, que 'falava' o tempo todo, não parava por nenhum momento. 

lembro-me de forçar minha imaginação tentando prever como seriam tuas feições quando você se tornasse uma menina e perdesse os traços de bebê. esforço sem sucesso. desistia e voltava a babar meu bebê. e me apaixonava e reapaixonava a cada uma dessas viagens no tempo.

dessas viagens, começo a fazê-las mais para o passado do que pro futuro. apesar da ansiedade em te ver crescendo, acho que já aprendi que não vale o esforço de tentar adivinhar, a realidade será sempre muito mais fascinante. hoje vejo na menina que acordou ao meu lado aquele bebê que ontem mesmo dormiu comigo.

você acorda - na maioria das vezes - já sorrindo, mas, em vez de bater suas perninhas de felicidade como fazia aos 3 meses, agora senta na cama me observando para logo em seguida voltar a deitar aninhada no meu corpo. ficamos ali até que você levanta impaciente anunciando que 'agora vamos lá tomar café'.

você segue sem poder ouvir a frase 'vamos dormir'. geralmente protesta com um 'eu não vou dormir nada!', um 'mas não quero dormir hoje!' ou argumenta que 'ainda vamos...' e inventa uma série de atividades inadiáveis para prolongar o antes-de-dormir. apesar de não ser meu momento preferido contigo, ainda prefiro essa hora de dormir com a menina-argumentadora do que com o bebê-choroso.

aliás, quanta argumentação pode caber numa menininha que beira os 3 anos? o bebê-falante virou uma menina-mais-falante-ainda. 'vou pisar na poça, pois estou de galochas'. 'não preciso de ficar na sombra puquê já passei filtro e estou de chapéu'. 'vou de vestido e short pra pracinha para não machucar meu bumbum'. 'meus pés estão cansados, quero colo'. 'me empresta seu celular? eu te empresto um brinquedo'. 'quando eu crescer vou poder sair sozinha'. é o preço que pago por criar filha pra ser questionadora. preço que pago feliz.

e não, você ainda não para por um segundo. mesmo quando está cansada, com sono, está a mil. correndo. pulando. cantando. brincando. falando pelos cotovelos. e isso é exaustivo - pra mim, claro, pra você não parece fazer diferença. eu rio sozinha quando alguém comenta 'ela não para, né?'. não, não para. mas você é assim. você sempre foi assim. teu tempo parece correr mais rápido do que o do resto do mundo.

dia desses você admitiu pra mim: 'mamãe, eu gosto de fazer as pessoas rir, pra elas ficarem felizes'. sorri pra você e transbordei de orgulho dessa menininha-bacana - como você gosta de dizer que é - que está crescendo junto comigo.

que sorte a minha que você veio.
que sorte a minha que estamos aqui juntas.

feliz aniversário, Dora.

sexta-feira, 27 de março de 2015

ela vem chegando...

dez e meia... há dois anos atrás tinha início o nosso balé. de alguma forma que a ciência ainda não conseguiu explicar, você avisou que estava na sua hora. que não esperaria a Páscoa ou o mês de Abril, como muitos insistiam que seria. parto, amamentação, puerpério, separação, mestrado, e você ali do meu lado. sendo, ironicamente, a minha luz. naquele 27 de março, eu não tinha ideia do que viria pela frente. e eu ainda não tenho. até aquele, o 28 de março era uma data sem peso algum no ano. e agora é também o meu aniversário.

às vezes me pego pensando em como será quando essa intensidade passar. ou quando será que vou parar de acordar e me surpreender... "caralho, sou mãe!" será que um dia passa? será que quero que passe? estou tão apaixonada por você nesse momento. é paixão arrebatadora. de ter acabado de colocar você para dormir e querer ir ali dar uma fungada no teu cangote. ou pior, querer te acordar pra ouvir qualquer anedota que você tenha para me contar. você dorme na cama ao lado e eu morro de saudades. estou louca! como disse, apaixonada. até aquele olhar boçal de quem acaba de descobrir o amor eu tenho...

sobre a saudade. ela é constante. agora, sinto saudade de você ali na sala, há duas horas atrás. mas também sinto saudade de você com bumbum de fralda. ou de quando você vinha engatinhando ao meu encontro. de ter você levinha, inerte, recém-nascida adormecida grudada no meu peito. e ainda consigo ter saudades de você como está agora. saudades antecipadas. de ver você crescer. de ver você falando tudo. cantando 'a canoa virou por causa de' todas as pessoas que você conhece. saudade de você indo pra escola. saudade do passado. saudade do presente. saudade do futuro. e aí volto na intensidade... quando será que ela vai passar?

você se mostra muito parecida com o que imaginei. e tua personalidade já era evidente antes de nascer e nas suas primeiras semanas de vida. garota forte. decidida. independente. abusada. extrovertida. solar. pra estar em paz contigo o exercício da negociação é constante. você tem que ser convencida das coisas. e que não venham com o papo de 'tira a mão daí pq tem bicho aí dentro'... não, você exige explicações plausíveis, sérias. é tanta personalidade que as vezes esqueço que você é só uma menininha de dois anos em breve. e que tem sono, e quando tem sono nada tá bom, e quer colo, aconchego e uma canção de ninar.

é clichê dizer isso no aniversário, mas, minha filha, desejo que você continue sendo o que demonstrou ser até agora. você canta, você encanta. ilumina o rosto de quem a vê. e não, não é corujice de mãe - ok, talvez um pouco... - siga envolvendo o mundo com amor, sem nunca se conformar com uma situação que lhe desagrade.

mamãe ama você. ama a mulher que se tornou depois que você nasceu. e ama a parceria que estamos construindo.  
feliz aniversário, Dora.

quinta-feira, 26 de março de 2015

como viemos ao mundo eu e ela.

Foi hoje, ou ontem(?) que vi um post onde falaram sobre kristeller. Comentei de pronto: “sofri a manobra e sofro com isso até hoje”. A parte do “sofro com isto até hoje” caiu no meu colo como um tijolo. Só ali percebi que a lembrança do meu parto também me doía. E, nesses quase dois anos, eu ainda não tinha me dado conta disto, já que a minha resposta usual é de que me orgulho – e muito! – do meu parto normal.  Contextualizemos, então:

Eu, 26 anos, inesperadamente grávida do namorido mergulho no mundo da pré-maternidade. Assistida por uma GO* fofinha, era minha médica havia quase dez anos. Lá pelas 20 e muitas ou 30 semanas eu percebo seu perfil clássico cesarista – “Vamos nos preocupar com o parto mais pra frente, Aninha?”, “O pai dela é alto, né? E você tão pequenininha, como faremos isso, hein?”, “Quarta feira é o dia da Dra. atender as gravidinhas e fazer os partos.”, “Parir de cócoras é coisa que só as índias sabem fazer, a mulher moderna não tem musculatura apropriada para isso”, etc - e ensaio uma troca de médico. Não dá certo. Minha DPP** tampouco ajuda, já que caía exatamente na semana santa. Eu volto a minha médica certa de que é melhor ter alguém que saiba com quem está falando caso eu ligue em TP*** no meio da madrugada (o que, por acaso, foi exatamente o que aconteceu). Sigo nadando contra a corrente o máximo que conseguiria naquele momento com as informações que eu tinha até então. Vale lembrar que fui a primeira das minhas amigas a engravidar e, na minha família, o último “bebê” tirou carteira de motorista este ano. Então não tinha em quem me espelhar. Desbravei – e ainda desbravo - eu mesma o caminho que queria trilhar. Nunca duvidei que ela nasceria de parto normal. Apesar de vir de uma família que se divide entre histórias cesáreas ou partos normais desastrosos eu respondia prontamente a qualquer questionamento sobre o tema: “ela entrou por vias normais, vai sair por vias normais.” E, vez por outra, justificava: “tenho pânico de agulha e ninguém vai me cortar”. Por fim, chegamos às 37 semanas de uma gravidez de notável tranquilidade. Nem vomitar nos primeiros meses eu vomitei. Pouca azia. Algum desconforto com chutes nas costelas ou inchaço nos pés. Mas absolutamente nada que indicasse uma cirurgia, necessária ou não.

Dia 25 de março, uma segunda feira, fomos, o namorido e eu, ao cinema. Completaríamos 38 semanas na quarta feira. Não sei dizer o filme, mas lembro de pegar o celular a cada dez minutos, pois já sentia algumas contrações, e as contava, em segredo. Não me preocupei, já que outra coisa que ouvi bastante durante a gestação é que o primeiro filho nunca chega com 38 semanas. Recebi um telefonema do consultório da GO:

“Ana, você tem consulta amanhã, né?”
“Sim!”
“Vamos deixar para quarta, que é o dia do seu parto?”  (!!!)
“Quarta completo 38 semanas, não é o dia do meu parto. Mas pode remarcar a consulta sim.”

Com a consulta reagendada, na terça, fiz aula de hidroginástica, fui ao Saara comprar qualquer-coisa-indispensável-ao-bem-estar-do-meu-bebê-mas-que-agora-já-não-me-lembro-mais, tomei sorvete, um dia normal. Na quarta feira eu estava, pela manhã, no consultório. Contei pra ela das contrações sem muito ritmo desde segunda feira, disse que me sentia bem. Ela fez o toque – fazia em todas as consultas, tão logo a barriga começou a crescer – e me mandou pra maternidade fazer alguns exames “de rotina”: “Aninha, essa mocinha pode ficar aí mais uns dias, mas pode resolver vir logo também”. Dentre as guias de exames: uma de internação.

Fui pra casa dos meus pais. Almocei e me preparei pra ir a maternidade. Ambos insistiram que eu fosse acompanhada. Mas algo que surgiu em mim desde o início da gravidez foi uma independência que nunca tive. Dispensei a companhia. Dei um abraço longo no meu pai e sorri dizendo: “sua netinha tá querendo chegar”. Nunca me esqueço desse abraço meio sem jeito e emocionado. Parti pra Perinatal de Laranjeiras.

Passei a tarde lá fazendo toda sorte de exames. Tudo normal. Tu-do. Não foi surpresa, nada diferente das 38 semanas anteriores. Todos que me atendiam repetiam animadamente que logo eu estaria com ela nos braços ou poderia ficar ali dentro mais uns dias. Por fim, liguei pra médica e passei por telefone mesmo os resultados. Ela me sugeriu que eu ficasse lá que ela orientaria as enfermeiras pra me colocar no sorinhoe já “resolvia isso logo”. Eu agradeci. Disse a ela que voltaria no dia seguinte ao seu consultório.

Vejam bem, eu, em momento algum, percebi a forma como ela conduzia as coisas e ao me recusar a ficar lá só o fiz por realmente acreditar que minha filha não chegaria tão rápido. Mal sabia eu do que estava me livrando. E só descobriria, algumas poucas semanas depois, o que significava o tal sorinho.

Voltei pra casa dos meus pais. Já com contrações um pouco mais fortes. Aguardei o namorido chegar e iriamos pra casa – do outro lado da cidade – juntos. Me lembro de estar deitada na cama dos meus pais quando percebi que o desconforto virava dor. Chegamos em casa por volta das dez da noite. Contávamos juntos as contrações. Em algum momento eu fui para o chuveiro. Puro instinto, nunca tinha lido nada sobre água quente melhorar a sensação das contrações. Fiquei lá por não sei quanto tempo. Ele diz que cheguei a dormir um pouco sentada num banco com a água caindo nas minhas costas. Outra cena que ainda vem a minha memória é o longo corredor do apartamento onde morava, eu andando de uma ponta a outra e parando pra sentir as contrações, me agachava, me alongava, rebolava. Alguma força maior me orientou naquele momento, alguém me guiava por aquele portal. Ainda que sem conhecimento literal da situação eu a vivia inteira- e intensamente. Saindo do chuveiro fui pra cama pensando “vou logo dormir, pra ir amanhã cedo ao consultório”. Quanta inocência! Me intriga a forma como eu, totalmente entregue e consciente do meu corpo durante o trabalho de parto não tinha ciência plena de que minha filha já estava a caminho. Talvez menos de 15 minutos deitada na cama ouvi um “ploc”. A bolsa estourou. Meu primeiro pensamento “Bosta! Tanto tempo no chuveiro, a bolsa estoura na cama! Logo hoje que foi dia da faxineira!” Só então aceitei que não demoraria para ter minha filha nos braços.

O que segue depois disso são flashes. Namorido demorou pra conseguir falar com a médica. A mala não estava completamente pronta. Era de madrugada e também não foi muito fácil achar um taxi. Apesar disso: tranquilidade, felicidade e ansiedade com o momento, concentração total no corpo. Fechei a mala. A médica não atendia o celular. Não atendia em casa. O auxiliar falou que ela tinha acabado de sair da Perinatal, passou o telefone de casa. Em casa, uma tia idosa, disse que ela estava no banho, pois havia acabado de chegar. Daria o recado. Conseguimos um taxi. Eu pedia que ele fosse devagar, cada movimento mais brusco do carro doía e nesse momento não tinha concentração que ajudasse.

Chegamos a Perinatal por volta de 4h da manhã. Só sei o número por conta da etiqueta que ganhamos. Lembro de ficar feliz por encontrar um segurança sorridente e de me irritar com a recepcionista que me perguntava como eu estava me sentindo. A essa altura, os avós já estavam avisados. Fui levada pra sala do primeiro atendimento onde a moça me deu Buscopan para as contrações. Meu sarcasmo natural me fez rir na cara dela: “é sério que você está me dando um remédio que eu tomo pra cólica?”. Ela sorriu sem graça. No hospital perdi parte do meu controle sobre o meu corpo e a conexão com seja-lá-o-que-estava-me-ajudando em casa. Parece o avental aberto nas costas me dava uma obrigação moral de ficar deitada e isso não funcionava. Em algum momento meus pais chegaram. Lembro vagamente das suas caras de pânico ao me ver em TP. Estavam claramente desconfortáveis com aquilo e não souberam disfarçar. Minha mãe, dias mais tarde, admitiu que me ver em TP foi das coisa mais difíceis pela qual ela já passou. Ela viveu duas cesáreas. Sobre a médica, algum tempo já na maternidade e nem sinal dela. Namorido tenta, sem sucesso, fazer alguma massagem pra me aliviar. E reclama, em algum momento, que estou apertando a mão dele muito forte. Oi?

Em algum momento a médica chega. “Aninha, vamos te levar pro quarto.”, sumiu. Subi pro 613. Falaram em lavagem. Eu falei logo que queria ir ao banheiro. Fui. A médica apareceu de novo, já está na hora de ir pra sala de parto, foi chamar o maqueiro. Eu volto a ter um pouco do controle que havia perdido. Sinto as contrações, mas elas não doem tanto. Tudo respiração e foco. Muito foco. O maqueiro demora dias. E quando ele chega, eu o odeio, me deitam de novo. Namorido volta a “existir” quando eu noto sua ausência por um longo período, me avisam que ele foi colocar as roupas pra entram no centro cirúrgico. Fico no centro cirúrgico sozinha, deitada em posição ginecológica aguardando a equipe e o pai da minha filha. Sinto frio. O anestesista chega para o que foi, sem dúvida, o pior momento do parto: me vira de lado, orienta o namorido a me “segurar firme” e tenta duas ou três vezes até acertar o ponto da anestesia. Lembra lá em cima quando disse que tenho pânico de agulha? Pois é.

A partir daí é tudo muito rápido e intenso. Começo a ser orientada a fazer força sem sentir mais nada. Não sinto dor. Sinto a médica fazendo o corte da episiotomia sobre a qual não falamos. O anestesista, um homem que eu nunca tinha visto até então, apoia um braço sobre a minha barriga e com a outra mão apoia em um dos meus seios. Namorido segura minha mão sem atentar ao que acontecia. Por um micro segundo me sinto violada e não entendo o porquê daquilo, mas minha atenção se volta ao que está acontecendo “embaixo dos panos”. Empurro (empurram por mim?). Ela nasce. Não chora. “Surreal! Surreal! Surreal!” repito incontáveis vezes. Peço que ela venha imediatamente pro meu peito – lembrei de ter lido como isso era importante e fiz muita questão. Mas ela não chora e não pega o peito. “Por que ela não chora?” eu penso “Bebês tem que chorar quando nascem! O que há de errado?” e deixo que a levem de mim. Hoje percebo quão breve foi aquele momento, não dei tempo pra ela se perceber nascida. Ela chora. Eu me sinto aliviada. Peço para ver a placenta – que foi empurrada para fora pelo anestesista. Parte da equipe se retira levando minha bebê. O pai a segue. Na sala ficamos eu, a GO e o anestesista que preenche algum formulário de uma cirurgia anterior. Na conversa entre eles ela declara “nossa, cortei muito! Passava um elefante aqui!” e ri. Eles me parabenizam e saem me deixando sozinha novamente. Penso em tudo aquilo que acabou de acontecer. Algum tempo depois levam minha maca para a porta do elevador onde eu fico por mais algum tempo. Consigo ver o quadro com as taxas de cesárea da maternidade. Me orgulho do meu parto normal. “Eu consegui!” penso. Chego no quarto. Meus pais me recebem com carinho. Vou ver minha filha cerca de três horas depois.


O parto normal me empoderou de tal forma que acabei tendo um puerpério muito tranquilo. Encarei com força e serenidade as dificuldades das primeiras semanas. Mas esse empoderamento me fez buscar informações e descobrir cada violência que sofri no meu parto (a)normal. Não me arrependo, pois sei que a mulher que pariu a Dora fez o melhor que pode com as informações que tinha naquele momento.


*GO - ginecologista obstetra
** DPP - data provável do parto
*** TP - tabalho de parto

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

carta a Dora.

Minha filha,

 pode parecer clichê, mas você chegou numa linda manhã ensolarada de outono. Mesmo sendo ainda o início da estação, o dia do teu nascimento foi um típico outonal, com aquela iluminação que nos faz sentir abençoados por viver um dia tão encantador. Apesar de saber exatamente como estava o dia em que você chegou ao mundo, eu não o vi. Você chegou e eu já estava desde muito cedo dentro da maternidade e, após o nosso encontro, não tive olhos para mais nada. Então eu, que sempre fui dessas que sabe exatamente o que se passa no mundo em datas especiais para mim, não sei te dizer a principal manchete do 28 de março de 2013. Sinto muito, meu bem, mas minha manchete naquele dia – e em todos os outros que vieram depois dele – era você. Mas, voltando, sim, eu sei que o dia estava especialmente ensolarado e iluminado, mas não lá fora. O sol que brilhava aquele dia era o meu, a belíssima iluminação dos dias de outono eram os meus olhos encontrando você. Que encontro maravilhoso, meu amor. Não vou mentir, eu sabia sim, que seria especial. Mas jamais imaginaria a proporção deste amor. Posso sentir ainda os sinais do meu corpo anunciando o nosso encontro. Quero poder nunca esquecer essas sensações. Trazer-te ao mundo foi o que de mais especial aconteceu comigo. Nasci junto contigo. Nasci mãe.

 Me orgulho da forma como você veio ao mundo. Me orgulho das escolhas que fiz para você até agora. Saiba que nada que vem daqui é automático ou proveniente de algum dos inúmeros manuais e passo-a-passos disponíveis por aí. Sua mãe busca muito o melhor para você, e para ela também. Leio, pesquiso, pergunto, reflito e, mais do que isso tudo junto, eu sinto. Um sentir diferente. Um sentir de mãe mesmo. Como senti, desde o início, que você seria um maravilhoso presente na minha vida (também daí vem o teu nome. Dora significa presente, você sabia?).  Sentir a maternidade e seguir meu instinto em relação a você foi o que de melhor pude fazer por nós duas. Se um dia você decidir ser mãe, minha filha, confie em você e tudo ficará bem. Como tem ficado para nós.

 O dia do seu aniversário é para te parabenizar, mas sua mãe só pode te agradecer. Obrigada, meu amor, pelo sorriso que você dá todas as manhãs; pelo aconchego que você busca no meu colo; pelo olhar puro quando está mamando; pelos gritinhos de felicidade; pela cantoria quando você está lutando, prestes a pegar no sono; por se desmanchar no meu colo quando ele te vence. Obrigada por me dar a chance de ser tão feliz contigo. Pela força que nasceu em mim junto contigo. Você gostaria muito de me conhecer antes da sua chegada, mas mulher que veio em mim junto contigo é muito mais fantástica. Essa mulher tem uma força que nunca poderia imaginar; tem orgulho de cada momento vivido contigo e muita energia para buscar ser o melhor exemplo de mulher que uma garotinha pode ter. Vivo para isso, minha flor.

 Este não foi apenas o teu primeiro ano, foi o nosso primeiro ano. Obrigada. E que venham todos os outros da sua vida. Que ela seja repleta de sonhos, desafios, sorrisos, dias de sol, dias de chuva, amigos, amores, flores... Que sua vida seja bem vivida, minha filha. E que você possa sempre contar com a sua mãe, para que eu possa retribuir, ainda que só um pouquinho, a benção que foi sua chegada a minha vida.

Te amo, sempre.

Mamãe.