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quarta-feira, 28 de março de 2018

o saber-se amada.



na sua última noite com 4 anos, você me diz o seguinte:
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'mamãe, sabe quem é minha melhor pessoa da vida?'
'quem filha?''você é minha minha melhor mamãe... e tem o meu melhor papai... e minha melhor vovó... e minha melhor outra vovó... e meu melhor vovô... e meu melhor outro vovô... e minha melhor bisa... e meu melhor biso...'
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filha minha, a gente passa a vida mudando de ideia. e depois que tem filho, as ideias parecem que, ao mesmo tempo que tem mais peso - e que deveriam ser mais definitivas -, ficam muito mais volúveis na medida em que a maternidade deixa de ser teoria e vira prática. eu já quis e desquis um tanto de coisas pra você. e olha que só estamos nessa há cinco anos. já desejei umas coisas pra nós duas que hoje em dia passam bem longe da realidade que vivemos. sei que boa parte do que considero bom ou ruim pra você vai mudar um pouco ou até bastante - a ponto, inclusive, do bom virar ruim e vice-versa.  
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enfim, a volubilidade dos meus quereres maternos (já) não me incomoda (mais). a real é que nesse ir e vir de ideais e decisões sobre dar o peito ou a mamadeira, colocar na escola careta ou na escola prafrentex, liberar a bala Juquinha ou insistir na bala de alga, ignorar o puta merda ou falar só putz grila na sua frente... tem uma vontade que sobrepõe todas as outras. um desejo que vem de lá de dentro. que parece existir desde o momento que te percebemos a caminho e que vai seguir para além da nossa existência aqui nesse plano: quero que você se saiba amada.
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sei do clichê que é sua mãe repetir pra você diariamente um 'filha, te amo!' e ver você fazer cara de 'tá bom... tá bom... agora me larga...', mas é inevitável! te amo quando tô pedindo pelo-amor-das-deusas que você coma um pouco mais rápido. te amo quando você tá na casa do seu pai e só consigo falar com você rapidinho. te amo quando chego tarde pra te buscar na escola. te amo quando pego um avião pra cruzar um oceano sabendo que só te verei semanas depois. te amo quando pulo uma página do livro de antes de dormir pra história acabar logo.
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mas para além disso, nesse seu quinto aniversário queria registrar meu desejo de que você se saiba amada por outras pessoas além da sua mãe e do seu pai. tem um tanto de gente que te quer bem, meu amor. uma rede incrível, que a gente constrói e nutre diariamente ao longo destes 5 anos e que eu quero continuar nutrindo e sendo nutrida por ela por muitos anos. 
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meu desejo neste instante é que você sempre tenha uma rede. que você saiba reconhecer quem te quer bem e estar com estas pessoas. que saiba cuidar delas e se deixar ser cuidada por elas. pelo que você me falou hoje antes de dormir, você já se sabe muito amada. que seja sempre assim, meu amor.
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feliz ano novo.   

segunda-feira, 27 de março de 2017

pilota-de-avião-mãe-princesa-bibliotecária-cantora-de-filme-super-heroína faz 4 anos.

e aí, no que pareceu um sopro de tempo, você chega aos quatro anos. lembro de ter você no colo ainda bebê, e de olhar para aquelas enormes crianças de quatro anos, pensar que para suas mães a maternidade já não era a novidade nenhuma, que elas deviam tirar tudo de letra, saber exatamente o que estavam fazendo e ter plena segurança sobre suas escolhas. tolinha, eu. amanhã completamos quatro anos dessa vida de mãe e filha e eu sigo achando tudo novidade, vivendo tudo intensamente.
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há três anos, nesta data, eu revivo aquela noite do seu nascimento. são as sensações, os cheiros, os sons de quando você vinha vindo. a dor era intensa, como se eu fosse virar do avesso. e foi mesmo isso que tive que fazer pra receber você, para ser sua mãe. renascer, me reconhecer, me construir outra. aquela manhã de quinta feira era só o começo. que delícia lembrar. e que delicia te contar a história do seu nascimento, que você agora tanto gosta de ouvir.
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você pede para ouvir sobre como era quando você era bebê e morávamos no Grajaú. vive curiosa perguntando porque a Chuchu é mais velha que você. adora ouvir sobre como descobrimos que você seria um bebê cabeludo numa ultrassom nas 32 semanas de gestação.
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aliás, você adora histórias. gosta de ouvi-las, de criar as suas próprias e contá-las. adora ser o centro das atenções e, pro meu descontentamento quase resignado, ama histórias de princesas e príncipes. minha filha, você veio ao mundo para me ensinar o verdadeiro sentido da expressão “cuspir pra cima”.   
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garotinha que não para nem por um minuto, você parece viver num musical, dança e canta o-tem-po-to-do. quando você era bebê eu, seu pai, seus avós, todos cantávamos pra você o tempo todo... e brincávamos nos perguntando como seria quando você descobrisse que a vida não é um musical. às vésperas do seu quarto aniversário parece que você ainda não descobriu. e torço para que isso não aconteça nem tão cedo. você vive em La La Land! e quase sempre é uma delícia viver nesse mundo musical contigo.
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o tempo passa rápido demais, nossas conversar são cada vez mais complexas – e tão bacanas! você já me perguntou coisas que eu não esperava ter que responder antes dos 10 anos, coisas que fazem ‘de onde vem os bebês?’ parecer fácil de responder. aproveito pra ir reelaborando minha visão de mundo a cada pergunta cabeluda que surge.
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além delas ainda tem as perguntas que me colocam num jogo de quiz constante: quantos ônibus passam num dia? por que a Chuchu tem rabo? o que é troco? por que o chão passa embaixo do nosso pé quando a gente anda? por que o mar é salgado? para onde vai toda essa gente do metrô? é sua sede de conhecimento e curiosidade sem fim!
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cresce, minha menina. cresce que o mundo é seu. vai ser o que quiser na vida... seja a pilota-de-avião-mãe-princesa-bibliotecária-cantora-de-filme-super-heroína que você quer ser. se depender da tua mãe, você terá uma companheira pra toda a vida, pra te apoiar e te acolher sempre.
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mamãe te ama. ama a mulher que se tornou com a sua chegada. e tá amando ver a menina forte e empoderada que você está se tornando.
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feliz 4 anos.
sigamos juntas, meu amor.

segunda-feira, 28 de março de 2016

pro seu terceiro aniversário.

"Quando me chamou, eu vim
Quando dei por mim, tava aqui
Quando lhe achei, me perdi
Quando vi você, me apaixonei..."


passei semanas cantarolando essa música após o seu nascimento, há três anos atrás. sua chegada foi um chamado, que sei lá de onde veio, mas não existia possibilidade de dizer que não. antes dele passei anos refletindo a possibilidade da maternidade - as vezes tendo certeza de que queria ser mãe, outras certa de que não. e aí que num susto - ao menos no plano material -, descobri você aqui dentro.

é meio querer explicar o inexplicável, mas a sensação é essa mesmo: de que quando me dei conta você já estava sendo gerada aqui dentro. e enquanto tentava entender a gestação... aproveitá-la... pesquisar sobre tudo... mudar de casa... arrumar seu quarto... montar enxoval... seguir conselhos... dormir... pisquei e... quando me dei conta você já estava aqui. e eu já não era mais eu. e logo que você nasceu eu também ainda não era a sua mãe. quem eu era? sem que eu pudesse me dar conta do quão rápido o tempo passava, eu nascia mãe e você foi brotando esse pézinho de sorrisos e vontades. bebê que acordava sorridente, que nunca quis dormir, que 'falava' o tempo todo, não parava por nenhum momento. 

lembro-me de forçar minha imaginação tentando prever como seriam tuas feições quando você se tornasse uma menina e perdesse os traços de bebê. esforço sem sucesso. desistia e voltava a babar meu bebê. e me apaixonava e reapaixonava a cada uma dessas viagens no tempo.

dessas viagens, começo a fazê-las mais para o passado do que pro futuro. apesar da ansiedade em te ver crescendo, acho que já aprendi que não vale o esforço de tentar adivinhar, a realidade será sempre muito mais fascinante. hoje vejo na menina que acordou ao meu lado aquele bebê que ontem mesmo dormiu comigo.

você acorda - na maioria das vezes - já sorrindo, mas, em vez de bater suas perninhas de felicidade como fazia aos 3 meses, agora senta na cama me observando para logo em seguida voltar a deitar aninhada no meu corpo. ficamos ali até que você levanta impaciente anunciando que 'agora vamos lá tomar café'.

você segue sem poder ouvir a frase 'vamos dormir'. geralmente protesta com um 'eu não vou dormir nada!', um 'mas não quero dormir hoje!' ou argumenta que 'ainda vamos...' e inventa uma série de atividades inadiáveis para prolongar o antes-de-dormir. apesar de não ser meu momento preferido contigo, ainda prefiro essa hora de dormir com a menina-argumentadora do que com o bebê-choroso.

aliás, quanta argumentação pode caber numa menininha que beira os 3 anos? o bebê-falante virou uma menina-mais-falante-ainda. 'vou pisar na poça, pois estou de galochas'. 'não preciso de ficar na sombra puquê já passei filtro e estou de chapéu'. 'vou de vestido e short pra pracinha para não machucar meu bumbum'. 'meus pés estão cansados, quero colo'. 'me empresta seu celular? eu te empresto um brinquedo'. 'quando eu crescer vou poder sair sozinha'. é o preço que pago por criar filha pra ser questionadora. preço que pago feliz.

e não, você ainda não para por um segundo. mesmo quando está cansada, com sono, está a mil. correndo. pulando. cantando. brincando. falando pelos cotovelos. e isso é exaustivo - pra mim, claro, pra você não parece fazer diferença. eu rio sozinha quando alguém comenta 'ela não para, né?'. não, não para. mas você é assim. você sempre foi assim. teu tempo parece correr mais rápido do que o do resto do mundo.

dia desses você admitiu pra mim: 'mamãe, eu gosto de fazer as pessoas rir, pra elas ficarem felizes'. sorri pra você e transbordei de orgulho dessa menininha-bacana - como você gosta de dizer que é - que está crescendo junto comigo.

que sorte a minha que você veio.
que sorte a minha que estamos aqui juntas.

feliz aniversário, Dora.

quarta-feira, 2 de março de 2016

pum de quê?

*fedor familiar*

- filha, você soltou pum?

- sim!
- foi pum de pum ou pum de vontade de fazer cocô?
- não, mamãe... relaxa.
- foi pum de quê, então?
- esse pum foi de vontade de brincar.

Dora, 2 anos, 11 meses e 3 dias.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

presentes da chuva.

hoje, no caminho entre um passeio e uma reunião, optei por pegar um ônibus em vez de ir de metrô. faço isso poucas vezes por conta do estado em que geralmente se encontram o ônibus da nossa cidade - vergonhosamente sujos, ar condicionado desligado e janelas trancadas - e, além de demorar mais no trajeto por conta do trânsito, estamos naquelas semanas do ano entre um reajuste e outro de passagem quando a tarifa do metrô é mais barata do que a dos ônibus. mas hoje, mesmo atrasada e em dia de chuva, fomos, ela e eu, de ônibus.

apesar de todos os contras, andar de ônibus com uma criança é muito mais legal do que de metrô. enquanto o eficiente caminho por baixo da terra requer esforços nossos para entretenimento da cria, no ônibus o entretenimento está dado: ela olha pela janela. e ela me convida a olhar pela janela com ela. 'olha, mamãe, aquele carro TÃO azul!', 'uaaau um trato-or!', 'uuuum... dois... três... eram três pessoas com guarda-chuvas... pq está chovendo, né mamãããee?', 'olha lá uma estátua de príncipe no cavalo!', 'mas que bagunça esses moços de obra estão fazendo...'

impossível evitar, entro na brincadeira. 'é um carro SUPER azul, né filha!?', 'aonde você acha que vai esse trator?', 'olha aquele outro moço de capa de chuva...', 'quem será aquele moço no cavalo?', 'essa obra é mesmo uma bagunça... olha o tamanho desse buraco!' 

que delícia de jogo!

ainda olhando pela janela, enquanto cruzamos o centro da cidade por uma avenida que há poucos dias teve seu trânsito completamente mudado e que tantas pessoas reclamaram, ela não se importa com o trânsito lento e, após contar meia dúzia de poças, afirma:

'as poças são presentes da chuva para mim... por que eu gosto de pisar nelas quando eu tô de galochas'



posso querer a companhia dela para sempre? posso querer nunca ficar cega deste olhar tão encantado para tudo? me apaixono.

<3 

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

dorices de outrora

entre os 16 e os 19 meses, foi isso que rolou:

entrego algo nas mão da Dora e ela:
- de nada mamãe.
- filha, quando a mamãe dá algo pra Dora, a Dora diz "obrigada, mamãe" e a mamãe é quem diz "de nada, filha" - entrego outro objeto a ela. e pergunto: 
- o que a Dora diz?
- de nada mamãe!



<3




ela anda fascinada por baleias. hoje, por acaso, encontrei um livro em casa, "o caracol e a baleia". o resultado: ela pula e exclama "baleiaaaa!" a cada página virada e, ao fim da história, um delicioso "mais mamãe, mais!"

Emoticon

<3

passamos por um cachorro.
ela: "óia! tachoiô!"
eu: "um tachoio filha!?"
ela: "tachoio não! tá-cho-iô!"

.

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com uma coruja de brinquedo na mão.
ela: "é minha xiôúja"
eu: "eu sei filha, sua xiôúja"
ela: "xiôúja não... xiô-úja!"
.
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ou seja, não é pq ela não sabe falar direito que a gente não vai falar direito com ela.




<3



"pupa pé! pupa pé! pupa pé!"

ela corre de um lado a outro na ponta do pé
Emoticon tongue

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

rapidinhas: meleca.

conta minha mãe que, antes de ter filhos, sempre achou horroroso criança que dava língua. e aí eu nasci. basta folhear uma meia dúzia de álbuns de fotografias da minha infância para logo identificar meu maior hábito ao posar nas fotos: dar a língua. 
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vinte anos mais tarde, eu, adulta, tenho nojo-de-revirar-o-estômago de criança comendo meleca. e aí eu tenho uma filha que...

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se apega no mantra: 
vai-passar-é-só-uma-fase-vaiiii
passar-é-só-uma-fase-vai-passarrrrr
é-só-uma-fase-vai-passar-éééé
só-uma-fase-vai-passar-é-sóóóó
uma-fase-vai-passar-é-só-umaaaaa
fase-vai-passar-é-só-uma-faseeeee

quarta-feira, 15 de julho de 2015

telefone sem fio.

ela no quarto.
eu no banheiro.
ela me grita de um canto da casa.
eu respondo de outro.

- mamain-nhê, cadê vuxê?
- tô no banheiro.
- vuxê tá fazendo totô?
- tô.
- e a vovó?
- não.
- cadê a vovó?
- tá no quarto dela.
- ela tá fazendo totô?
- espero que não.
- então tá bom. beijo.*

sabe aquele constrangimento que rola quando você tem que responder alguma coisa de dentro do banheiro? pois é, passou.

*agora ela tá nessa vibe de se despedir a cada fim de diálogo.

segunda-feira, 29 de junho de 2015

palavrinhas mágicas.

- mamain-nhê, me dá bolinho?
- como se fala, filha?
- obrigada!
- não. você está pedindo...?
- licença!
- licença é pra passar. você está pedindo 'por fá...'
- papel!
- ...
- maimain-nhê, me dá bolinho?
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..
...


'té lê?' - pedia a bebê-turning-menininha enquanto (per)seguia qualquer adulto da casa com o livro na mão.

'Leia!' - ordena a menina-rainha jogando a obra escolhida no colo do leitor da vez dando a ele pouca ou nenhuma chance de resposta.

de onde surgiu este imperativo? onde foi parar o por favor?

ela fica mais ariana a cada dia que passa.

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..
...


quarta-feira, 3 de junho de 2015

mãe-avestruz.

são inúmeras e hilárias! as histórias que ouvimos de criança colocando os pais em situações de saia-justa. como qualquer fase, eu sabia que meu dia chegaria. como vários marcos da vida dela, veio antes do que eu esperava. não pensei que seria assim tão cedo. com 2 anos e 2 meses, Dora me fez desejar ser um avestruz pra poder enfiar a cabeça num buraco no chão. Tudo o que eu queria era su-mir.

entramos no metrô. uma senhora nos cede o lugar. normalmente eu não aceitaria vindo de alguém mais idoso, mas a combinação carro-cheio-com-duas-sacolas-e-criança não me permitiu tal educação, aceitei. a senhora ficou por ali puxando papo com Dora, que dividia sua atenção entre sua boneca e suas botas, ela não tava mesmo muito afim de papo. eu, tentando retribuir a gentileza da senhora, estimulo um diálogo: “filha, a senhora está falando com você, por que não dá boa noite a ela e agradece por nos ceder o lugar? Diga: obrigada, senhora”. Dora olha pra mim, olha pra senhora, mete o dedo na barriga da senhora e exclama para quem quisesse ouvir naquele vagão lotado “téin neném atí, mamain!? teeein!?”

preciso dizer que não tinha?

desnecessário, filha. desnecessário.


segunda-feira, 4 de maio de 2015

chorando a morte do 'tachoio'.

e, assim, sem mais nem menos você joga na minha cara que é Dora. sim, eu sei que esse é o seu nome. fui eu que escolhi e sou muito feliz com a minha escolha. todos elogiam. e não consigo pensar em nome que mais lhe coubesse. então, você me pergunta, qual a surpresa? por que o choque? 


a questão, minha filha, é que até semana passada você era Dóia. e assim como o meu smartphone volta e meia me pega com uma atualização de aplicativo qualquer pela qual eu não solicitei, você está constantemente adquirindo novas habilidades. e faz questão de sair por aí falando seu nome ‘certo’.


exageros e dramalhão a parte, o Dola ainda é muito mais comum que Dora, admito. mas o erre está ali, tímido, mas está ali. e daí que presença dele me faz perceber a partida de outras palavrinhas com as quais eu já tinha me habituado e que são (eram? eram..!) música para os orgulhosos e babões ouvidos de uma mãe coruja.


de uma hora pra outra, a Dóia virou Dola, o tachoio já é cacholo, fifufoni deu lugar ao telefone, tuto virou suco, dato Fufu é gato Chuchu... e meu coração se enche de um paradoxal orgulho nostálgico a cada nova atualização do mais fofo dos aplicativos.  

quinta-feira, 16 de abril de 2015

sobre a indecisão que acomete as crianças de dois anos, ou como fazer mamãe de idiota.

é só a minha filha ou todas as crianças de dois anos nunca sabem o que querem comer? Hoje foi de leite para sopa, então arroz e por fim biscoito. Fiz o leite com mel:

- té tenti, mamain. -  esquentei.
- té giádu.
-  filha, não dá pra deixar gelado logo após esquentar o leite.
Então ela muda o foco:
- té xopinha. – esquento a sopa. Toma meia sopa e delibera:
- a Dóia té aôx, mamain. – esquento o arroz e, duas colheradas de arroz quente depois:
- té buínho!
- Dora, termine seu arroz e terá o bolinho.

Choro.
Escândalo.
Apocalipse.
Dou o bolinho. Come metade e pede:


- dá bixôtu, mamain, putavô?
como é que eu vou negar o biscoito, se ela pediu por favor? 

quinta-feira, 2 de abril de 2015

dorices.

enquanto nós saímos do banho:

- você é minha delícia!
- naum! xú deíxia naum! eu xô sú mamáin!
- ah é!? e se você é minha mamãe, eu sou sua o que?
- vuxê é minha Dóia.


<3


a vovó prepara um ovo para ela e pergunta:

Dora, você quer a gema do ovinho mole ou dura?
- Té amaiéia!


<3


mostrando a ela fotos de quando eu estava grávida:

- olha filha, quem é esta?
- é a mamain!
- e dentro da barriga da mamãe, quem estava?
- é papai!


<3


ela passa da sala pra cozinha com um arco de tranças. eu a chamo:

- Dora!
- ...
- Dora?
- ...
- Do-rá!?
Só então ela responde lá de dentro:
- Xô Dóia naum... Xô Apunzel!


<3


De manhã, na cozinha:

- Dora , você quer o que de café da manhã?
- ...
- Quer vitamina?
- ...
- Quer banana?
- ...
- Quer sanduíche de queijo?
- ...
- Quer iogurte? Quer biscoito? Quer me responder!?
- Té espondê!

terça-feira, 10 de março de 2015

todo mundo tá feliz...

a mãe vai buscar a filha na creche, a cria sai falante contando tudo do dia. 'a Dóia comeu fijão','fez dodói', 'jugô bóia', 'tumô xuco' e desanda a cantar:

tudu mudu tá fiíz
tá fiíz!

tudu mudu tá fiíz
tá fiíz!

tudu mudu tá fiíz
tá fiíz!

e só na quarta vez que ela levantou os bracinhos no segundo "tá fiíz" é que a ficha caiu - ou meu inconsciente quis aceitar... - que se tratava de um clássico dos anos 80. eu que tava reclamando do lérigou, nem sonhava que logo ela me apareceria cantando Xuxa.




ins-pira.
ex-pira.
não-pira.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

o maior clichê da psicologia infantil.


- Dora, vem botar o tênis.

- Dóia té tênix naum, a Dóia té xandália!
- não pode sandália filha, o tênis faz parte do uniforme da creche.
- té xandáia!
- tênis e meia.

- a xandáia!!
- isso mesmo, a sandália.

- naum, Dóia té tênix!



chegamos no momento exato do maior clichê da psicologia infantil! \o/

vou já providenciar um vídeo destes:


sábado, 7 de fevereiro de 2015

uma rapidinha da pracinha.

a criança sobe no escorrega mais alto da pracinha e congela lá de cima - de onde a mãe de um metro e meio não consegue tirá-la. a mãe chama:
- vem filha! - mas a criança permanece imóvel, olhando prum ponto fixo.
- naum.
- veeem fiiilha, dá a mão pra mamãe! - a mãe se põe na ponta dos pés, se estica toda e ainda assim não chega nem perto de alcançar a cria. 
- a moxa! - a menina aponta.
- que moça? - a mãe indaga.
- a moooxa mamain! - a cria insiste apontando pro nada.
- não tem moça, Dora. desce logo daí - a mãe começa a perder a paciência, mas segue esticada tentando alcançar a cria.
- a Dóia vai dexer naum. a moxa! - segue apontando pro nada.
a mãe começa a pensar em tudo o que andou lendo sobre mediunidade em crianças pequenas. sobre como eles são sensitivos e começa a aceitar que, para a criança, talvez tenha mesmo um moça ali. engole o ceticismo e segue na batalha pra tirar sua filha do alto da torre do escorrega:
- filha, mostra pra moça como você sabe escorregar. diz "oi, moça! tudo bem?" dá tchau pra moça. você quer brincar com a moça? - tenta de tudo.
- moxa não, mamain. mo-xa! tá moiado da chuuuva!



não tinha espírito nenhum. era só uma poça d'água no fim do escorrega.

sábado, 24 de janeiro de 2015

amizade x bolo.

estamos indo hoje a festa de aniversário de uma amiguinha da creche. a primeira pessoa, fora família e amigos bem próximos, por quem ela manifestou algum vínculo de amizade. poucas semanas após entrar pra creche, ela já chegava em casa falando da Bia. se a gente pergunta quem está esperando por ela na creche, a resposta é imediata e entusiasmada "a Biaaaa!". durante as férias, ela perguntava diariamente "cadê a Biiia?". quando a creche voltou e a Bia não, foi difícil explicar que a Bia estava viajando e que voltaria em algumas semanas: "a Bia foi na creche não..." ela repetia desgostosa ao voltar pra casa no fim do dia.


pois bem, chegou o dia da festa da Bia. há dias estamos conversando sobre como vai ser legal ver a Bia. reencontrar a Bia. brincar com a Bia. e etc, etc, etc.

ao acordar, falamos mais uma vez no assunto:

- filha, sabe o que faremos hoje?
- na festa da Bia!
- isso! e você vai ver a Bia, não é legal? qual a coisa mais legal que você quer fazer na festa da Bia?
- éééé - ela enrola enquanto pensa, afinal, com tanta saudade da amiguinha, são muitas as possibilidades. e responde em seguida - a Dora vai comer bolo!



segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

mom mum mommy...!

mãe estourando de dor de cabeça com a cara enfiada no travesseiro. e o bebê:
- mamãe.
silêncio.
- mamãe... mamãe!
silêncio.
- mamãeee!! mamãeee!!
- oooi?

smack!


tenho minha própria versão do Stewie:



terça-feira, 30 de dezembro de 2014

e para o ano novo, o primeiro "te amo, mamãe"

ela estava ali em cima da cama estapeando o gato por esporte, como sempre faz quando está com sono e não aceita simplesmente recostar-se e adormecer. enquanto isso a mãe corria contra o tempo para para arrumar as malas e sair logo evitando o trânsito. a avó viu a cena e não gostou:

- Dora, não faça isso com a Chuchu, ela é nossa gatinha querida.
- ...

a avó insistiu:

-  pobrezinha da Chuchu. não fazemos isso com que a gente gosta. te amo, Chuchu. te amo. te amo. te amo...

ao que a cria responde:

- Ti uamu, mamãe!
.
.
.
.

Será feliz, este 2015. 

sábado, 27 de dezembro de 2014

breves notas do dia a dia: sobre o desfralde.

você acordou - mais uma vez! - com a fralda seca. sugeri que fosse fazer xixi no vaso, em troca, eu leria para você o livro d"O Sapo e a Sopa" enquanto você estivesse sentada.
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xixi feito. 

livro lido - duas vezes.
digo que agora é hora de dar tchau pro xixi.
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- tchau xixi! - dizemos em coro. e você completa - tchau pum!