Que você nunca perca esse olhar que nos engole com a sua curiosidade de tudo.
Que nunca deixe de sorrir largo com esses sorrisos que a gente chega a ouvir o som da sua gargalhada quando vê uma foto.
Que nunca cesse essa tua energia que dá choque na gente e carrega quem tiver junto.
Que você nunca pare de criar e contar suas histórias.
Que siga perguntando tudo o tempo todo.
Que você jamais perca sua combatividade.
Que você siga se fantasiando e sendo quem você quiser ser.
Que eu tenha saúde pra seguir te acompanhando.
Que eu saiba identificar os momentos que você não precisa que eu te acompanhe.
E que sigamos crescendo juntas. pq desde que você chegou, que eu não faço outra coisa se não me reinventar pra caber nesse papel que caiu no meu colo há 6 anos atrás.
quinta-feira, 28 de março de 2019
quarta-feira, 28 de março de 2018
o saber-se amada.
na sua última noite com 4 anos, você me diz o seguinte:
.
'mamãe, sabe quem é minha melhor pessoa da vida?'
'quem filha?''você é minha minha melhor mamãe... e tem o meu melhor papai... e minha melhor vovó... e minha melhor outra vovó... e meu melhor vovô... e meu melhor outro vovô... e minha melhor bisa... e meu melhor biso...'
.
filha minha, a gente passa a vida mudando de ideia. e depois que tem filho, as ideias parecem que, ao mesmo tempo que tem mais peso - e que deveriam ser mais definitivas -, ficam muito mais volúveis na medida em que a maternidade deixa de ser teoria e vira prática. eu já quis e desquis um tanto de coisas pra você. e olha que só estamos nessa há cinco anos. já desejei umas coisas pra nós duas que hoje em dia passam bem longe da realidade que vivemos. sei que boa parte do que considero bom ou ruim pra você vai mudar um pouco ou até bastante - a ponto, inclusive, do bom virar ruim e vice-versa.
.
enfim, a volubilidade dos meus quereres maternos (já) não me incomoda (mais). a real é que nesse ir e vir de ideais e decisões sobre dar o peito ou a mamadeira, colocar na escola careta ou na escola prafrentex, liberar a bala Juquinha ou insistir na bala de alga, ignorar o puta merda ou falar só putz grila na sua frente... tem uma vontade que sobrepõe todas as outras. um desejo que vem de lá de dentro. que parece existir desde o momento que te percebemos a caminho e que vai seguir para além da nossa existência aqui nesse plano: quero que você se saiba amada.
.
sei do clichê que é sua mãe repetir pra você diariamente um 'filha, te amo!' e
ver você fazer cara de 'tá bom... tá bom... agora me larga...', mas é
inevitável! te amo quando tô pedindo pelo-amor-das-deusas que você coma um
pouco mais rápido. te amo quando você tá na casa do seu pai e só consigo falar
com você rapidinho. te amo quando chego tarde pra te buscar na escola. te amo
quando pego um avião pra cruzar um oceano sabendo que só te verei semanas
depois. te amo quando pulo uma página do livro de antes de dormir pra história acabar logo.
.
mas para além disso, nesse seu quinto aniversário queria registrar meu desejo de que você se saiba amada por outras pessoas além da sua mãe e do seu pai. tem um tanto de gente que te quer bem, meu amor. uma rede incrível, que a gente constrói e nutre diariamente ao longo destes 5 anos e que eu quero continuar nutrindo e sendo nutrida por ela por muitos anos.
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meu desejo neste instante é que você sempre tenha uma rede. que você saiba reconhecer quem te quer bem e estar com estas pessoas. que saiba cuidar delas e se deixar ser cuidada por elas. pelo que você me falou hoje antes de dormir, você já se sabe muito amada. que seja sempre assim, meu amor.
.
feliz ano novo.
segunda-feira, 27 de março de 2017
pilota-de-avião-mãe-princesa-bibliotecária-cantora-de-filme-super-heroína faz 4 anos.
e aí, no que
pareceu um sopro de tempo, você chega aos quatro anos. lembro de ter você no
colo ainda bebê, e de olhar para aquelas enormes crianças de quatro anos, pensar que
para suas mães a maternidade já não era a novidade nenhuma, que elas deviam
tirar tudo de letra, saber exatamente o que estavam fazendo e ter plena
segurança sobre suas escolhas. tolinha, eu. amanhã completamos quatro anos dessa
vida de mãe e filha e eu sigo achando tudo novidade, vivendo tudo intensamente.
.
há três anos,
nesta data, eu revivo aquela noite do seu nascimento. são as sensações, os
cheiros, os sons de quando você vinha vindo. a dor era intensa, como se eu
fosse virar do avesso. e foi mesmo isso que tive que fazer pra receber você, para ser sua mãe. renascer,
me reconhecer, me construir outra. aquela manhã de quinta feira era só o começo. que delícia
lembrar. e que delicia te contar a história do seu nascimento, que você agora
tanto gosta de ouvir.
.
você pede para
ouvir sobre como era quando você era bebê e morávamos no Grajaú. vive curiosa
perguntando porque a Chuchu é mais velha que você. adora ouvir sobre como
descobrimos que você seria um bebê cabeludo numa ultrassom nas 32 semanas de
gestação.
.
aliás, você adora
histórias. gosta de ouvi-las, de criar as suas próprias e contá-las. adora ser
o centro das atenções e, pro meu descontentamento quase resignado, ama histórias
de princesas e príncipes. minha filha, você veio ao mundo para me ensinar o
verdadeiro sentido da expressão “cuspir pra cima”.
.
garotinha que não
para nem por um minuto, você parece viver num musical, dança e canta
o-tem-po-to-do. quando você era bebê eu, seu pai, seus avós, todos cantávamos
pra você o tempo todo... e brincávamos nos perguntando como seria quando você
descobrisse que a vida não é um musical. às vésperas do seu quarto aniversário parece que você ainda não descobriu. e torço para que isso não aconteça
nem tão cedo. você vive em La La Land! e quase sempre é uma delícia
viver nesse mundo musical contigo.
.
o tempo passa
rápido demais, nossas conversar são cada vez mais complexas – e tão bacanas! você
já me perguntou coisas que eu não esperava ter que responder antes dos 10 anos,
coisas que fazem ‘de onde vem os bebês?’ parecer fácil de responder. aproveito
pra ir reelaborando minha visão de mundo a cada pergunta cabeluda que surge.
.
além delas ainda
tem as perguntas que me colocam num jogo de quiz constante: quantos ônibus
passam num dia? por que a Chuchu tem rabo? o que é troco? por que o chão passa
embaixo do nosso pé quando a gente anda? por que o mar é salgado? para onde vai
toda essa gente do metrô? é sua sede de conhecimento e curiosidade sem fim!
.
cresce, minha
menina. cresce que o mundo é seu. vai ser o que quiser na vida... seja a pilota-de-avião-mãe-princesa-bibliotecária-cantora-de-filme-super-heroína que você quer ser.
se depender da tua mãe, você terá uma companheira pra toda a vida, pra te apoiar e te acolher
sempre.
.
mamãe te ama. ama a
mulher que se tornou com a sua chegada. e tá amando ver a menina forte e
empoderada que você está se tornando.
.
feliz 4 anos.
sigamos juntas, meu amor.
segunda-feira, 4 de julho de 2016
carta a uma amiga puérpera.
eu queria dizer que tô com saudade de você. e que tô aqui pensando que você deve estar com saudade de você também. e que me mata um pouquinho não poder passar aí de vez em quando no fim do dia com um saquinho de pão de queijo pra botar no forno enquanto você toma um banho com calma e eu seguro João pra depois a gente bater um papo e falar da vida. eu queria te dizer que espero muito que você tenha alguém fazendo isso por você agora, pq eu sei bem o valor disso no momento em que você tá vivendo. e que sei também que posso estar falando um monte de besteira, pq cada experiência é única e essa é a sua, e não a minha.
.
mas eu queria te dizer também que essa fase passa. boa ou ruim - e meu chute é de que ela esteja sendo um muito dos dois, as vezes ao mesmo tempo -, ela passa. te dizer que hoje eu dei de cara com uma menina enorme no skype e ela tava orgulhosa fazendo pum-de-boca que aprendeu. por um breve momento eu a não reconheci, pq ontem mesmo ela era esse bebezico aí, como o seu, que me fazia sentir saudade de mim, sendo que eu nem sabia mais ao certo quem eu era. hoje eu sei um pouco mais quem eu sou e ela... bem, ela não perde tempo na descoberta de si enquanto cresce numa velocidade audaz de quem não tá nem aí pras saudades que tá deixando.
.
repito, essa fase passa. não digo que você voltará a ser você, mas logo você voltará a fazer as suas coisas, aos poucos a vida se rearranja. e aí a gente vai conseguir sentar, tomar um chopp enquanto as crianças correm por aí. prometo.
sexta-feira, 20 de maio de 2016
a falta da cara amassada.
recentemente voltei a trabalhar.
na verdade mudei o esquema de trabalho, pq de verdade mesmo eu nunca parei de trabalhar, nem quando ela era mt bebê. toda a vida da minha filha de 3 anos e 2 meses foi comigo trabalhando de casa ou com curtos períodos de intenso trabalho fora dela. agora eu saio antes da cria acordar e vou buscá-la na escola logo após o trabalho.
eu estava preparada pra sentir o corpo reclamando de sair da cama com o dia ainda por amanhecer. eu estava preparada pro corpo reclamar de comer fora todo dia. eu estava preparada pra amar/odiar o trabalho. eu não estava preparada para morrer de saudades da minha filha.
vejam bem, ela tem 3 anos. dorme na casa do pai dela desde os 18m. desde o ano passado está numa creche maravilhosa em período integral. é criança feliz e independente. então não é que de uma hora pra outra nós duas estejamos passando muito mais tempo separadas do que costumávamos passar. não é que ela esteja sofrendo, eu tô! tá... eu tô um pouquinho, mas dá licença de fazer um drama pq o texto é meu e o blog também.
ela tá bem.
na roda do esquemão, para que eu consiga sair pra trabalhar bem cedo, entrou o papai, a vovó e o vovô com participações maiores e a ilustríssima contribuição do dindo, que sai do caminho dele pra buscar a afilhada em casa e levar na creche antes de ir ele mesmo pro trabalho. mamãe trabalha feliz podendo contar com rede de apoio. criança estreita laços com cuidadores que ela ama e que amam ela. todo mundo ganha.
mas a mãe tá lá com aquele aperto no peito.
não é aperto terrível. não é tristeza. é uma saudade roxa. uma 'melancoliazinha' chata de não ver mais diariamente a cara amassada dela quando acorda. é uma culpamaterna esquisita de estar amando o trabalho e todo o universo que o envolve. é a surpresa de estar sentindo tudo isso sendo que não tenho mais um bebê em casa...
mas aí cai a ficha de que tô saindo de casa sem ver a carinha amassada dela pra fazer algo que tô amando fazer. e mais além, penso que o melhor exemplo que minha filha pode ter é o de uma mãe feliz na maternidade, mas tb de mulher realizada com o que faz. daí o aperto afrouxa, a melancolia dá um tempo e o final de semana chega pra matar a saudade.
pq cabem muito mais mulheres aqui dentro do que só ser mãe da Dora.
mas a mãe tá lá com aquele aperto no peito.
não é aperto terrível. não é tristeza. é uma saudade roxa. uma 'melancoliazinha' chata de não ver mais diariamente a cara amassada dela quando acorda. é uma culpamaterna esquisita de estar amando o trabalho e todo o universo que o envolve. é a surpresa de estar sentindo tudo isso sendo que não tenho mais um bebê em casa...
mas aí cai a ficha de que tô saindo de casa sem ver a carinha amassada dela pra fazer algo que tô amando fazer. e mais além, penso que o melhor exemplo que minha filha pode ter é o de uma mãe feliz na maternidade, mas tb de mulher realizada com o que faz. daí o aperto afrouxa, a melancolia dá um tempo e o final de semana chega pra matar a saudade.
pq cabem muito mais mulheres aqui dentro do que só ser mãe da Dora.
segunda-feira, 28 de março de 2016
pro seu terceiro aniversário.
"Quando me chamou, eu vim
Quando dei por mim, tava aqui
Quando lhe achei, me perdi
Quando vi você, me apaixonei..."passei semanas cantarolando essa música após o seu nascimento, há três anos atrás. sua chegada foi um chamado, que sei lá de onde veio, mas não existia possibilidade de dizer que não. antes dele passei anos refletindo a possibilidade da maternidade - as vezes tendo certeza de que queria ser mãe, outras certa de que não. e aí que num susto - ao menos no plano material -, descobri você aqui dentro.
é meio querer explicar o inexplicável, mas a sensação é essa mesmo: de que quando me dei conta você já estava sendo gerada aqui dentro. e enquanto tentava entender a gestação... aproveitá-la... pesquisar sobre tudo... mudar de casa... arrumar seu quarto... montar enxoval... seguir conselhos... dormir... pisquei e... quando me dei conta você já estava aqui. e eu já não era mais eu. e logo que você nasceu eu também ainda não era a sua mãe. quem eu era? sem que eu pudesse me dar conta do quão rápido o tempo passava, eu nascia mãe e você foi brotando esse pézinho de sorrisos e vontades. bebê que acordava sorridente, que nunca quis dormir, que 'falava' o tempo todo, não parava por nenhum momento.
lembro-me de forçar minha imaginação tentando prever como seriam tuas feições quando você se tornasse uma menina e perdesse os traços de bebê. esforço sem sucesso. desistia e voltava a babar meu bebê. e me apaixonava e reapaixonava a cada uma dessas viagens no tempo.
dessas viagens, começo a fazê-las mais para o passado do que pro futuro. apesar da ansiedade em te ver crescendo, acho que já aprendi que não vale o esforço de tentar adivinhar, a realidade será sempre muito mais fascinante. hoje vejo na menina que acordou ao meu lado aquele bebê que ontem mesmo dormiu comigo.
você acorda - na maioria das vezes - já sorrindo, mas, em vez de bater suas perninhas de felicidade como fazia aos 3 meses, agora senta na cama me observando para logo em seguida voltar a deitar aninhada no meu corpo. ficamos ali até que você levanta impaciente anunciando que 'agora vamos lá tomar café'.
você segue sem poder ouvir a frase 'vamos dormir'. geralmente protesta com um 'eu não vou dormir nada!', um 'mas não quero dormir hoje!' ou argumenta que 'ainda vamos...' e inventa uma série de atividades inadiáveis para prolongar o antes-de-dormir. apesar de não ser meu momento preferido contigo, ainda prefiro essa hora de dormir com a menina-argumentadora do que com o bebê-choroso.
aliás, quanta argumentação pode caber numa menininha que beira os 3 anos? o bebê-falante virou uma menina-mais-falante-ainda. 'vou pisar na poça, pois estou de galochas'. 'não preciso de ficar na sombra puquê já passei filtro e estou de chapéu'. 'vou de vestido e short pra pracinha para não machucar meu bumbum'. 'meus pés estão cansados, quero colo'. 'me empresta seu celular? eu te empresto um brinquedo'. 'quando eu crescer vou poder sair sozinha'. é o preço que pago por criar filha pra ser questionadora. preço que pago feliz.
e não, você ainda não para por um segundo. mesmo quando está cansada, com sono, está a mil. correndo. pulando. cantando. brincando. falando pelos cotovelos. e isso é exaustivo - pra mim, claro, pra você não parece fazer diferença. eu rio sozinha quando alguém comenta 'ela não para, né?'. não, não para. mas você é assim. você sempre foi assim. teu tempo parece correr mais rápido do que o do resto do mundo.
dia desses você admitiu pra mim: 'mamãe, eu gosto de fazer as pessoas rir, pra elas ficarem felizes'. sorri pra você e transbordei de orgulho dessa menininha-bacana - como você gosta de dizer que é - que está crescendo junto comigo.
que sorte a minha que você veio.
que sorte a minha que estamos aqui juntas.
feliz aniversário, Dora.
terça-feira, 8 de março de 2016
oito de março.
quer me desejar um feliz dia da mulher? me pague um salário equivalente ao que ganham homens da mesma idade e com mesma escolaridade que eu. lute por um mercado de trabalho que trate da mesma forma pais e mães. apoie a legalização do aborto. aceite o ‘não!’ que eu te disse na balada sem me chamar de vagabunda. disfarce a cara de surpresa quando eu te contar que tenho uma filha pequena e saio a noite e bebo e fumo e trepo. guarde pra você os comentários sobre o tamanho da minha saia, junto com o que você pensa sobre meus mamilos estarem marcando a blusa. não elogie minha filha dizendo que ela ‘é linda e vai dar um trabalhão pro pai quando crescer’. não me chame de ‘meu amor’ se você está apenas me atendendo numa loja. guarde pra você comentários machistas e não se justifique dizendo que o que você falou ‘foi só uma piadinha’. se uma mulher apontar machismo na tua fala, apenas acate e reflita. pare de achar que eu preciso de um homem para me sentir plena, feliz e segura. deixe minha filha crescer livre ser o que ela quiser ser. crie você também o seu filho para crescer livre e ser o que ele quiser ser, vai que ele descobre que quer ser uma mulher e você tava aí pensando que não precisaria ser preocupar com os direitos das mulheres...
#nãoqueroflores #DiaInternacionaldaMulher
segunda-feira, 7 de março de 2016
recado grávido
prezado ser-humano-não-gestante,
se você vê uma gestante fazendo algo que - você acha que - ela não deveria fazer por conta da gestação e sente uma necessidade incontrolável de alertá-la sobre suas atitudes, observe o tamanho da barriga. pense que quanto maior o tamanho da barriga, maior a chance dela já ter ouvido o que você tem a dizer a ela. se, ainda assim, você optar pelo alerta, faça-o de maneira gentil e simpática.
ao final do seu discurso, deseje tudo de bom a gestante e seu bebê e pare por aí. nenhuma mulher grávida gosta de ficar ouvindo histórias trágicas de como você conhece "n" mulheres que perderam bebês de formas banais ou trágicas.
grata pela atenção,
ser-humano-gestante-com-níveis-perigosamente-baixos-de-paciência
(texto original de mar/13
- 35 semanas de gravidez)
quarta-feira, 2 de março de 2016
pum de quê?
*fedor familiar*
- filha, você soltou pum?
- sim!
- foi pum de pum ou pum de vontade de fazer cocô?
- não, mamãe... relaxa.
- foi pum de quê, então?
- esse pum foi de vontade de brincar.
Dora, 2 anos, 11 meses e 3 dias.
- filha, você soltou pum?
- sim!
- foi pum de pum ou pum de vontade de fazer cocô?
- não, mamãe... relaxa.
- foi pum de quê, então?
- esse pum foi de vontade de brincar.
Dora, 2 anos, 11 meses e 3 dias.
quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016
#desafiodamaternidade ou 'tô fora de padecer no paraíso!'
conseguir parir, mesmo sofrendo
violência obstétrica, querer ter meu corpo e minhas escolhas respeitados pela
equipe médica. aceitar que o parto que tive foi o parto possível para mim e
para minha filha naquele momento, com as informações que eu tinha naquele
momento.
passar pela abissal solidão do
puerpério.
afirmar-me constantemente como
mãe-capaz para parentes, amigos e sociedade em geral compartilhando e
explicando minhas escolhas-fora-da-caixa.
morar sozinha com bebê de colo
por meses. e lidar, ainda, com a solidão imensa que a maternidade traz.
fazer um mestrado com uma filha de
2 anos.
seguir buscando os melhores
caminhos para mim e para ela lutando para não entrar no piloto-automático da
criação de filhos.
ouvir dos outros que ‘você não
devia beber cerveja se ainda amamenta’, nem ‘sair a noite sair a noite se tem
filha pequena’, da sorte que tenho da minha filha ter um pai presente e – o clássico
– ‘filho é da mulher, né?’
sentir-me a única responsável por cuidar/organizar/decidir sobre questões da vida da minha filha como a sua rotina semanal, qual escola vai estudar, se faz ou não atividades extra-classe, quando e a qual pediatra/dentista levar, etc. e, sendo aquela que 'dá a palavra final', arcar com as consequências/dúvidas/inseguranças que essas decisões trazem.
sentir-me a única responsável por cuidar/organizar/decidir sobre questões da vida da minha filha como a sua rotina semanal, qual escola vai estudar, se faz ou não atividades extra-classe, quando e a qual pediatra/dentista levar, etc. e, sendo aquela que 'dá a palavra final', arcar com as consequências/dúvidas/inseguranças que essas decisões trazem.
argumentar – agora diretamente
com ela – que rosa não é cor de menina; que homens podem beijar homens na boca,
se isso os faz felizes; que a moça dirigindo o ônibus pode dirigir o ônibus e
qualquer outra coisa que ela tiver afim de dirigir; que antes de casar com o
príncipe, a princesa bem podia viajar/estudar/conhecer outros príncipes; que o
cabelo dela pode ser cacheado, liso ou do jeito que ela quiser.
ser rotulada de chata por
questionar a normalização do consumismo infantil; questionar a adultização das
nossas meninas; questionar a medicalização da infância. por questionar tudo o
tempo todo...
estes são meus desafios da
maternidade. perdoem-me, mas disto não tenho foto. sou feliz em ser mãe apesar
disso. o amor, o cheirinho de bebê, as fofurices, os marcos de desenvolvimento,
os sorrisos, os abraços fazem parte da maternidade sim. mas os fatos acima
listados são o que me fazem a mãe que sou hoje e da qual me orgulho.
são só três anos nesse papel,
ainda vou passar por muita coisa das quais não faço ideia que me esperam, mas
quero sempre lembrar desse início, quando percebi que maternidade é paradoxal e que a foto beijoca-do-pai-na-barriga está bem longe da realidade do dia a dia.
tô fora de padecer no paraíso.
quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016
escuta.
num grupo de maternidade duma
rede social surge um debate polêmico sobre o racismo. e outro. e mais um. e tantos
mais. para não sair – tanto – do âmbito do grupo, eles tem como provocadores o
uso de slings por mulheres brancas, uso de turbantes também por elas, uma
campanha numa loja de roupa infantil de gosto duvidoso, etc.
na atual conjuntura, tenho a
impressão de que qualquer tema pode ser gatilho de uma discussão acalorada
sobre racismo. e não é pequeno o número de pessoas que vejo reclamando do tom
destes debates. ‘Parecem dois monólogos!’ ‘Não há escuta!’, ‘Tem respostas muito
agressivas!’ – queixam-se.
pois bem, concordo. fossem
teatralizados, esses posts contariam com duas pessoas numa praça pública, ambas
com megafones, cada uma entoando seus próprios argumentos enquanto engasgam sem
ar por ignorarem as virgulas do discurso. me incomodam esses bate-bocas online –
que nada tem de virtuais, pelo contrário, são bem reais - onde parece que o
autor do último comentário sequer refletiu/digeriu a fala do penúltimo
comentário. mas considero esses 'duplo-monólogos’ extremamente válidos, pois,
em muitos casos, é a primeira vez que a segunda voz é falada em praça pública.
e a ideia destas discussões
parecerem dois monólogos incomoda demais. incomoda, pois até pouco tempo o dono
da voz era só um: o do branco, neste caso. o do homem, no caso do feminismo. o
dos héteros, no caso do movimento LGBT. e assim por aí vai.
e o tom incomoda mais ainda, pois
ele agora é de igual para igual. nessa praça todos tem direito a um megafone.
mas, voltando as discussões
acerca do racismo, não posso dizer que são agressivas as falas das mulheres
negras acerca da apropriação cultural no uso de slings ou turbantes pelas
mulheres brancas, pois eu nunca estive no lugar do negro para saber se o meu
discurso enquanto mulher branca é agressivo. e preciso do olhar do outro para
me dizer agressiva ou não. se uma
senhora negra passa pela vitrine de uma loja de roupas e se horroriza com
manequim negro – ou pintado de preto, como os porta-vozes da marca idiotamente insistem em dizer
– virado de cabeça para baixo, o sr. Rony Meisler deve enfiar a viola no saco e
admitir o incômodo que causou. sendo mãe de uma criança pequena, preciso
acreditar num mundo melhor, então prefiro crer que o intuito da marca não foi
fazer uma apologia a práticas de tortura durante a escravidão e causar esse ''’’’’desconforto’’’’’’,
mas causou. e, sinto muito, mas só o negro tem propriedade pra dizer se isso
incomodou ou não. como só a mulher pode dizer se o ‘fiu fiu’ foi desrespeitoso
ou não. e, de novo, por aí vai...
por fim, acompanhando esses
entusiasmados debates, penso que envolvem, em sua maioria, questões onde
dificilmente chegar-se-á a um meio termo. mas o debate é sempre válido. o debate é
necessário. e fica aqui uma última provocação: será que essa escuta não está
mais difícil, pois agora existem outras vozes nesse debate?
sexta-feira, 22 de janeiro de 2016
presentes da chuva.
hoje, no caminho entre um passeio e uma reunião, optei por pegar um ônibus em vez de ir de metrô. faço isso poucas vezes por conta do estado em que geralmente se encontram o ônibus da nossa cidade - vergonhosamente sujos, ar condicionado desligado e janelas trancadas - e, além de demorar mais no trajeto por conta do trânsito, estamos naquelas semanas do ano entre um reajuste e outro de passagem quando a tarifa do metrô é mais barata do que a dos ônibus. mas hoje, mesmo atrasada e em dia de chuva, fomos, ela e eu, de ônibus.
apesar de todos os contras, andar de ônibus com uma criança é muito mais legal do que de metrô. enquanto o eficiente caminho por baixo da terra requer esforços nossos para entretenimento da cria, no ônibus o entretenimento está dado: ela olha pela janela. e ela me convida a olhar pela janela com ela. 'olha, mamãe, aquele carro TÃO azul!', 'uaaau um trato-or!', 'uuuum... dois... três... eram três pessoas com guarda-chuvas... pq está chovendo, né mamãããee?', 'olha lá uma estátua de príncipe no cavalo!', 'mas que bagunça esses moços de obra estão fazendo...'
impossível evitar, entro na brincadeira. 'é um carro SUPER azul, né filha!?', 'aonde você acha que vai esse trator?', 'olha aquele outro moço de capa de chuva...', 'quem será aquele moço no cavalo?', 'essa obra é mesmo uma bagunça... olha o tamanho desse buraco!'
que delícia de jogo!
ainda olhando pela janela, enquanto cruzamos o centro da cidade por uma avenida que há poucos dias teve seu trânsito completamente mudado e que tantas pessoas reclamaram, ela não se importa com o trânsito lento e, após contar meia dúzia de poças, afirma:
'as poças são presentes da chuva para mim... por que eu gosto de pisar nelas quando eu tô de galochas'
posso querer a companhia dela para sempre? posso querer nunca ficar cega deste olhar tão encantado para tudo? me apaixono.
<3
quarta-feira, 30 de dezembro de 2015
dorices de outrora
entre os 16 e os 19 meses, foi isso que rolou:
entrego algo nas mão da Dora e ela:
- de nada mamãe.
- filha, quando a mamãe dá algo pra Dora, a Dora diz "obrigada, mamãe" e a mamãe é quem diz "de nada, filha" - entrego outro objeto a ela. e pergunto:
- o que a Dora diz?
- de nada mamãe!
<3
ela anda fascinada por baleias. hoje, por acaso, encontrei um livro em casa, "o caracol e a baleia". o resultado: ela pula e exclama "baleiaaaa!" a cada página virada e, ao fim da história, um delicioso "mais mamãe, mais!"
Emoticon
<3
passamos por um cachorro.
ela: "óia! tachoiô!"
eu: "um tachoio filha!?"
ela: "tachoio não! tá-cho-iô!"
.
.
com uma coruja de brinquedo na mão.
ela: "é minha xiôúja"
eu: "eu sei filha, sua xiôúja"
ela: "xiôúja não... xiô-úja!"
.
.
ou seja, não é pq ela não sabe falar direito que a gente não vai falar direito com ela.
<3
"pupa pé! pupa pé! pupa pé!"
ela corre de um lado a outro na ponta do pé
Emoticon tonguesexta-feira, 13 de novembro de 2015
de onde as pessoas acham que o nome dela veio.
não são poucas e ainda serão muitas mais as vezes que associam o nome dela ao nome da personagem do desenho animado. e não há uma só vez em que eu não deseje uma coragem maior ou um filtro social menor para dar a seguinte resposta:
.
'qual o nome dela?'
'Dora.'
'que lindo! por causa do desenho, né?'
'claro! liguei na Discovery Kids e ela chutou. ainda bem que tava passando 'Dora, a aventureira' e não 'Peppa Pig'.'
.
.
ah se a vida me permitisse esse grau de sinceridade.
sexta-feira, 6 de novembro de 2015
rapidinhas: meleca.
conta minha mãe que, antes de ter filhos, sempre achou horroroso criança que dava língua. e aí eu nasci. basta folhear uma meia dúzia de álbuns de fotografias da minha infância para logo identificar meu maior hábito ao posar nas fotos: dar a língua.
.
.
vinte anos mais tarde, eu, adulta, tenho nojo-de-revirar-o-estômago de criança comendo meleca. e aí eu tenho uma filha que...
.
.
se apega no mantra:
vai-passar-é-só-uma-fase-vaiiii
passar-é-só-uma-fase-vai-passarrrrr
é-só-uma-fase-vai-passar-éééé
só-uma-fase-vai-passar-é-sóóóó
uma-fase-vai-passar-é-só-umaaaaa
fase-vai-passar-é-só-uma-faseeeee
terça-feira, 27 de outubro de 2015
#primeiroassédio
todas nós temos histórias de um primeiro assédio. todas nós temos histórias de muitos outros assédios mais. eles vieram de pessoas que deviam nos amar e nos proteger, mas que nos marcaram pra sempre com cenas que acabamos guardando lá no fundo da memória para que nunca sejam lembradas. vieram de completos estranhos que acham que não fizeram nada demais com aqueles olhares, palavras ou toques.
me embrulha o estômago pensar nas grandes chances que minha filha tem de passar por isso, de sentir o mesmo medo, constrangimento, nojo e culpa que eu senti por tantas vezes, por tanto anos. será que ela também vai demorar mais de vinte anos para entender que a culpa não é dela, que não é ela a se sentir constrangida, que não é ela a pessoa nojenta daquele contexto, que ela não precisa sentir medo? e, mais importante de tudo, será que precisa demorar décadas para que ela entenda que não precisa se calar diante disto?
vamos contar sobre o #primeiroassédio, o segundo, o terceiro, o décimo oitavo, o trigésimo! vamos falar sobre isso! até que fique bem claro que não é 'só uma cantada', que a menina de doze anos não é uma 'novinha' e que o corpo de uma mulher pertence a ela e somente a ela.
deu pra entender ou quer que desenhe?
me embrulha o estômago pensar nas grandes chances que minha filha tem de passar por isso, de sentir o mesmo medo, constrangimento, nojo e culpa que eu senti por tantas vezes, por tanto anos. será que ela também vai demorar mais de vinte anos para entender que a culpa não é dela, que não é ela a se sentir constrangida, que não é ela a pessoa nojenta daquele contexto, que ela não precisa sentir medo? e, mais importante de tudo, será que precisa demorar décadas para que ela entenda que não precisa se calar diante disto?
vamos contar sobre o #primeiroassédio, o segundo, o terceiro, o décimo oitavo, o trigésimo! vamos falar sobre isso! até que fique bem claro que não é 'só uma cantada', que a menina de doze anos não é uma 'novinha' e que o corpo de uma mulher pertence a ela e somente a ela.
deu pra entender ou quer que desenhe?
segunda-feira, 19 de outubro de 2015
creche pública.
como muitos outros aspectos da maternidade, o tema 'escola pra cria' foi pensado enquanto acontecia e não necessariamente de forma planejada. tivemos uma experiência muito bacana na primeira creche que nos acolheu, que teve papel importantíssimo na transição bebê-em-casa-bebê-na-crech e, um lugar que até hoje recomendo a quem me procura pra saber como foi quando ela começou na creche aos 11 meses.
infelizmente a mensalidade de uma creche particular não cabe no bolso de todas as famílias. a verdade é que pagar creche é realidade possível para bem poucos pais e mães, com a gente não foi diferente. busquei na creche pública uma alternativa possível para nossa realidade financeira e a acabei com um envolvimento muito maior com a causa do que eu poderia esperar.
essa foto aí mostra muito pouco do que a creche representa pra mim. além do óbvio - bastante espaço verde pras crianças correrem -, esse cantinho no meio da zona sul do Rio de Janeiro conta com uma estrutura super bacana, equipe maravilhosa, apaixonada pelo trabalho que faz e que se coloca sempre muito aberta e disposta a construir a escola junto com as famílias, junto com as crianças.
precisamos desconstruir preconceitos tolos envolvendo a qualidade de serviços públicos e particulares. essa escola não deixa a desejar em absolutamente nada quando comparada a instituições particulares que visitei, muito pelo contrário...
sei que não são todas as creches públicas que são boas assim, mas acredito muito que todas podem ser boas assim. por isso ter minha filha no ensino público vai muito além da economia em mensalidade, é um ato político. um ato político de ocupação de um espaço que é de todos nós e deve ser construído e cuidado por todos nós.
sexta-feira, 9 de outubro de 2015
carta aberta a quem não anda pra cima e pra baixo carregando um bebê
Prezados seres habitantes de um universo paralelo ao meu onde você não carrega um bebê por aí com você a onde quer que você vá,
este texto é para você, que encontra na rua uma mãe com um simpático bebê sorridente e acaba interagindo com a dupla. Seguem algumas dicas de etiqueta nesta interação:
- pode elogiar a vontade, mas se não tem algo positivo para falar? Não fale. Histórias sobre como a prima do ex-namorado da sua vizinha perdeu de forma trágica um filho com a mesma idade dificilmente vão interessar. Pode ficar só interagindo com o bebê, não tem problema.
- evite colocar a sua mão na mão do bebê. Bebês estão passando pela fase oral, colocam tudo a boca. Sua mão pode até estar limpa, mas a mãe da criança não sabe disso e não vai fazer muita diferença se você falar que acabou de lavar a mão.
- evite passar a mão na barriga de uma grávida que você nunca viu na vida. Acha isso um exagero? Imagine a situação sem a mulher estar grávida. Eu sei o milagre da vida é lindo, mas você sairia acariciando a barriga de estranhos se não fosse o bebê ali dentro? Se faz muita questão de passar a mão, peça. A mãe ainda é a dona da barriga.
- em hipótese alguma ofereça algo para o bebê comer sem antes perguntar a mãe se ele já come ou se ele pode comer aquilo que você quer oferecer. (Isso pra mim vale até para crianças maiores.)
- por favor, nunca pergunte “o que é que ele tem?”, “o que tem de errado com ele?” ou similares quando o bebê está chorando. O que quer que esteja acontecendo, a mãe provavelmente já sabe o que é e já está fazendo o possível para resolver. Se o choro do bebê te incomoda, se retire.
- também não tente adivinhar. Frases como “É fome, por que você não dá a mamadeira?”, “Tá com sono, né? Olha só como está tarde!” ou “Ela não está com frio? Olha a perninha de fora” são comentários absolutamente dispensáveis. Como dito ali em cima, a mãe já sabe o que está acontecendo e já está tomando as providências.
- não diga o que você acha. Sério. Mesmo que você tenha parido 10 filhos e criado mais 10 que foram largados na tua porta e todos eles estejam bem de vida, saudáveis e bem resolvidos. Ainda assim, quem sabe o que é melhor para aquele bebezinho em questão é a mãe dele.
- ofereça ajuda, mas não insista. Por mais enrolada que aquela mãe pareça estar, ela está acostumada a fazer o que quer que esteja fazendo. E se precisar de ajuda ela vai logo aceitar, ou até pedir. Insistir em ajudar enche o saco.
Bom senso, minha gente. Eu sei que não vem de fábrica. Mas pense que você é um estranho e o bebê é a coisa mais importante da vida daquela mãe.
E que fique claro que essas são observações para quando você é um estranho. Amigos e família servem para dar pitacos e interagir!
Emoticon smile
ass. uma mãe que esteve junto a uma estranha sem noção por 40min num engarrafamento com a filha chorando de sono
terça-feira, 6 de outubro de 2015
errata do dia de hoje.
hoje preciso te pedir desculpas.
.
que você me perdoe pelo colo que não dei. pela pergunta que fingi não escutar. pela negociação na qual poderia ter cedido e não cedi. pelo momento juntas em que estive completamente ausente. pelo caminho percorrido de mãos dadas que não aproveitei. pelos suspiros impacientes. pela música que não cantei junto. pelo aconchego que não ofereci. pelo carinho que neguei.
.
as vezes, filha minha, as mães tem um dia muito esquisito. um dia em que lá no fundo - ou não tão fundo assim - elas desejam voltar a ser só filhas e ter colo, respostas, acordos, presença, companhia, paciência, aconchego e carinho.
.
o amanhã não muda o que foi hoje. mas hoje mudou o que será amanhã. amanhã serei melhor. prometo.
segunda-feira, 27 de julho de 2015
quando foi que a militância pelo direito ao parto normal virou luta contra as mulheres que fizeram cesáreas?
querida
mulher que passou de forma consciente por uma cesariana para que seu filho
nascesse,
a
luta a favor do parto normal não é contra você.
quem busca e consegue um parto normal - ainda que esteja sujeita uma série de violências obstétricas - não acha que você ama menos o seu bebê e ela ama mais o dela por que você optou passar por uma cirurgia e ela não. é serio. se tua via de parto foi respeitada e a dela também, parabéns! ambas são privilegiadas por isso, você sabia? sim, pois dentre a clientes de planos de saúde, mais de 60% das mulheres começam sua gestação afirmando que querem ter seu bebê por parto normal, sabemos que menos de 20% tem seu parto por via vaginal. que tipo de escolha é essa?
quem busca e consegue um parto normal - ainda que esteja sujeita uma série de violências obstétricas - não acha que você ama menos o seu bebê e ela ama mais o dela por que você optou passar por uma cirurgia e ela não. é serio. se tua via de parto foi respeitada e a dela também, parabéns! ambas são privilegiadas por isso, você sabia? sim, pois dentre a clientes de planos de saúde, mais de 60% das mulheres começam sua gestação afirmando que querem ter seu bebê por parto normal, sabemos que menos de 20% tem seu parto por via vaginal. que tipo de escolha é essa?
como
podemos falar de respeitar a vontade da mulher quando essa ‘opinião’ muda tão
radicalmente em algumas semanas?
existe um mercado sustentado por essas cirurgias pré-agendadas – e que, não
raro, são ditas ‘de emergência’ para a gestante e sua família. um hospital que ganha mais se tem previsão exata de quantas pacientes passarão pela sala de
parto por dia. equipes médicas ganham que mais se planejam bem seu tempo dentro do
hospital e dentro do consultório. imagine o que gasta uma paciente que opta por
parir naturalmente em contraste com uma que passa por uma cirurgia onde há a necessidade
de incontáveis recursos hospitalares. cabe a nós questionar o funcionamento
desse mercado e refletir o quão ético é seguir alimentando o mesmo, não?
é
indiscutível que cabe a mulher a total autonomia sobre o seu corpo. e não
somente no parto, desde o seu nascimento. e essa autonomia passa pela
consciência. meninas precisam conhecer seus corpos, aprender que podem se
tocar, se conhecer, se masturbar e não ter vergonha disso. saber sobre
reprodução vai muito além de contar os prováveis 28 dias do ciclo menstrual e
colocar camisinha em banana num curto tempo de aula de ciências no oitavo ano. ensinemos
as nossas meninas sobre o método Billings, alternativas aos
absorventes de farmácia – absorventes de pano, coletores -, sobre formas de lidar
com as cólicas. arranquemos o rótulo tragicômico da tensão pré-menstrual. ensinemos
a elas a lidarem com seus corpos em vez de temerem os mesmos.
nós crescemos
ouvindo como o corpo feminino é defeituoso: somos o sexo frágil; somos muito
magras ou estamos acima do peso; nossos peitos são muito pequenos, muito
grandes, caídos, diferentes entre si; o quadril é muito largo ou muito
estreito. não há corpo feminino perfeito possível! o que nos é apresentado na
mídia chega a ser risível, se olharmos atentamente. buscamos a cintura da
Cinderela ou os seios da Lara Croft? tudo isso diminui a confiança da mulher
sobre o próprio corpo. e o momento da gestação/parto/amamentação é só mais um
momento onde olhamos para nós mesmas desacreditadas. quem vai se entender capaz
de parir quando tem para isso uma ferramenta tão imperfeita e tão falha como o
corpo feminino?
mulheres têm a confiança minada, pela ideia de que seus
corpos são falhos e incapazes (ou elas mesmas o são, por consequência) e
precisam de ajuda médica. como a mulher pode “escolher” se os médicos estão
direcionando essa escolha? se os convênios possuem taxas de quase 90% de
cesáreas há algo de muito grave nos corpos das mulheres ou no atendimento
obstétrico?
o
movimento da humanização do parto – que é plural e polifônico como todo
movimento social – de modo geral propõe justamente divulgar informação para que
a mulher tenha autonomia em relação ao seu corpo e seu parto. não é uma luta
anti-escolha, muito menos anti-mulher-que-faz-cesárea, mas a favor da autonomia
da mulher.
estamos jogando no mesmo time.
estamos jogando no mesmo time.
Ana Luz
colaboração: Marina Nucci
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